23/08/2017 18h40
STF suspende julgamento sobre possibilidade de uso de amianto no Brasil
Após o voto de seis ministros em sessão plenária nesta quarta-feira, 23, o Supremo Tribunal Federal suspendeu o julgamento que trata da possibilidade de produção e venda no Brasil de um tipo especÃfico de amianto, o "crisotila". No momento, o placar é de 4 a 3 a favor do entendimento de que é válida uma lei federal de 1995 que regulamenta a extração e comercialização do material e permite o uso do amianto crisotila. A retomada do julgamento está prevista para esta quinta-feira. Faltam os votos dos ministros Celso de Mello e Cármen Lúcia.
Também conhecido como "asbesto branco", o amianto crisotila é usado principalmente para fabricação de telhas e caixas d'água. Há questionamentos sobre o amianto diante de relatos cientÃficos de que a sua inalação pode causar riscos à saúde e provocar, entre outras doenças, o câncer de pulmão e a asbestose, uma doença que causa falta de ar e pode levar a problemas respiratórios mais graves. O STF analisa ao todo sete ações que tratam de leis que proÃbem a produção, comércio e uso de produtos com amianto, bem como do uso da variedade crisotila.
A relatora da ação, ministra Rosa Weber, votou na semana passada pela proibição do amianto, afirmando que a lei que permite o uso está em desacordo com os preceitos constitucionais de proteção à vida, à saúde humana e ao meio ambiente, além de desrespeitar as convenções internacionais sobre o tema das quais o Brasil é signatário. Em seu voto, a relatora citou diversos estudos que apontam riscos à saúde, como câncer, atestando não haver nÃveis seguros de exposição à substância.
"A tolerância do amianto tal como positivada não protege de forma adequada e suficiente os direitos fundamentais à saúde e meio ambiente, tampouco se alinha a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, como a Convenção 139 e 132 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Convenção de Basileia, sendo caso de inconstitucionalidade em caso de proteção insuficiente", votou a ministra, acompanhada pelos ministros Edson Fachin e Ricardo Lewandowski.
A divergência começou no voto do ministro Alexandre de Moraes, acompanhado por Luiz Fux, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello. "Não há dúvida sobre os perigos da aplicação do amianto. Mas, no momento da edição da lei (junho de 1995), houve olhar protetivo quanto à regulamentação. Poderia proibir de forma absoluta ou poderia ter optado - como o fez - por permitir o uso do tipo crisotila. E, dentro da ótica de proteção à saúde, o legislador autorizou o crisotila, mas com as devidas precauções, sem ignorar estudos técnicos e cientÃficos. Houve assim ponderação do legislador", disse o ministro Alexandre de Moraes em seu voto.
O ministro Marco Aurélio afirmou que o perigo resultante do manuseio inadequado do produto não deve levar à proibição da comercialização. "Há pessoas jurÃdicas e naturais que atendem à s prescrições do poder público, o que prova que as medidas de controle podem ser plenamente eficazes. Então, a consequência prática seria punir exatamente estas pessoas ante conduta imprópria de outros agentes. Não se pode por isso colocar a culpa nos particulares e sim no poder público que descumpre aà sim os deveres previstos na convenção 62 da OIT", disse.
"Se o amianto deve ser proibido em virtude dos riscos que gera à coletividade ante o uso indevido, talvez tenhamos de vedar com maior razão as facas afiadas, as armas de fogo, os veÃculos automotores, enfim, tudo que fora do uso normal traz dano à s pessoas", disse Marco Aurélio Mello, que comparou também com o álcool e o tabaco.
Ainda faltam os votos do ministro Celso de Mello e da ministra Cármen Lúcia, presidente da Corte, o que deixa em aberto a possibilidade de o entendimento contrário ao uso do amianto vencer. O ministros LuÃs Roberto Barroso e Dias Toffoli não participam deste julgamento. Barroso se declarou impedido, por já ter atuado na causa como advogado, e Dias Toffoli, porque era advogado-geral da União na época em que a ação começou a ser discutida.
Atualmente, vários Estados já proÃbem o uso do amianto apontando riscos à saúde de operários. Entre eles, Pernambuco, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Por outro lado, as empresas afirmam que o manuseio correto diminui riscos e que a proibição completa traria prejuÃzo econômico e demissões em massa.
Fonte: Estadão Conteúdo