10/04/2017 14h24
Testes da vacina contra zika em camundongos foram bem-sucedidos
A vacina contra a zika que está sendo desenvolvida por cientistas do Instituto Evandro Chagas, em parceria com a Universidade do Texas em Galveston, nos Estados Unidos, mostrou resultados animadores em testes com camundongos, de acordo com um artigo cientÃfico publicado nesta segunda-feira, 10, pelo grupo na revista Nature Medicine.
De acordo com o diretor do Instituto Evandro Chagas, o virologista Pedro Vasconcelos, que é um dos coordenadores do estudo, a vacina produzida com o vÃrus vivo atenuado, com apenas uma dose, foi capaz de induzir o organismo dos camundongos a produzir anticorpos neutralizantes, protegendo-os da infecção.
"É a primeira vez que se tem uma vacina com vÃrus vivo atenuado desenvolvida. Os experimentos com camundongos com mosquitos mostraram o que esperávamos: além de proteger os roedores contra uma infecção letal pelo vÃrus zika selvagem, ela não é capaz de infectar o Aedes aegypti - o que é muito importante para impedir que a doença seja transmitida por via vacinal", disse Vasconcelos à reportagem.
Diversos outros grupos estão desenvolvendo vacinas, mas todas elas se baseiam na utilização do vÃrus inativado, ou de fragmentos de DNA do vÃrus. Segundo Vasconcelos, uma das vantagens de se utilizar o vÃrus vivo atenuado é que isso possibilita uma imunização eficaz com apenas uma dose.
"Tomamos a decisão de utilizar o vÃrus vivo porque, ao contrário das vacinas de DNA e de vÃrus inativado, ela induz a uma resposta imunológica muito forte, permitindo que uma única dose proteja contra o vÃrus para o resto da vida", declarou o virologista. "Isso é importante porque, do ponto de vista da saúde pública, é muito complicado coordenar uma vacinação que necessite de várias doses de reforço."
De acordo com Vasconcelos, neste momento os cientistas estão finalizando os experimentos com primatas, cujos resultados também serão publicados em um artigo cientÃfico. Depois da publicação, terão inÃcio os testes em humanos, que deverão durar alguns anos.
"Esperamos que no inÃcio de maio, no máximo, já tenhamos o artigo sobre os testes em primatas pronto para a publicação. Esses testes são a última fase antes de iniciar os ensaios clÃnicos em humanos, que esperamos iniciar já no segundo semestre deste ano", explicou.
Camundongos
Para avaliar a segurança da vacina, os cientistas realizaram diversas baterias de testes. Na primeira, para descobrir se a vacina produzia a própria doença, eles utilizaram dois grupos de camundongos - um deles foi inoculado com a vacina e outro com o vÃrus selvagem.
Seis dias depois, os animais infectados com o vÃrus selvagem apresentaram alta carga viral em todos os órgãos testados. Os que foram inoculados com a vacina não apresentaram nenhuma carga viral nos músculos e no cérebro e uma baixa carga em outros órgãos.
Dez dias após a infecção, os camundongos infectados com o vÃrus selvagem mantiveram carga viral no rim, cérebro, olho e especialmente nos testÃculos. Já nos roedores inoculados com a vacina, não havia mais carga viral detectável em nenhum órgão.
A segunda bateria de testes serviu para avaliar se a vacina poderia causar danos ao tecido nervoso dos camundongos recém-nascidos.
Novamente, dois grupos de animais receberam a vacina e o vÃrus selvagem - mas, desta vez, a inoculação foi feita diretamente no cérebro. Todos os roedores que receberam a injeção com a vacina sobreviveram. Já entre os que receberam a injeção com o vÃrus selvagem, 25% morreram.
Segundo Vasconcelos, também foram usados camundongos geneticamente modificados para morrerem quando são infectados com o vÃrus selvagem. Os cientistas inocularam o vÃrus nesses animais, e todos morreram.
"Um grupo de camundongos vacinados, porém, recebeu 30 dias após a imunização a mesma dose do vÃrus selvagem que havia sido letal para os animais não vacinados. Nenhum deles morreu, porque já tinham anticorpos. Mostramos que a vacina é inócua e que os animais, além de não morrerem, produziram anticorpos e não tiveram sintomas", explicou Vasconcelos.
Mosquitos
Na última série de testes, os cientistas fizeram dois experimentos para investigar se o vÃrus atenuado da vacina é capaz de infectar o mosquito Aedes aegypti, que é o principal transmissor da zika.
Um grupo de animais foi inoculado com o vÃrus selvagem, e outro com a vacina. Depois eles foram expostos separadamente aos mosquitos, para que eles se alimentassem do sangue. O experimento simulou, portanto, a via natural de infecção.
"Nenhum dos mosquitos que se alimentaram do sangue com a vacina desenvolveu infecção. Enquanto isso, mais da metade dos insetos que se alimentaram do sangue com o vÃrus selvagem ficaram infectados", disse Vasconcelos.
No último experimento, os pesquisadores inocularam a vacina de vÃrus atenuado diretamente nos mosquitos. "Mesmo recebendo o vÃrus vacinal diretamente, nenhum dos mosquitos ficou infectado. Isso nos deu a certeza de que a vacina não infecta o Aedes aegypti com zika."
Fonte: Estadão Conteúdo