17/10/2019 12h30
'Tragédia anunciada', diz filho de vítima de desabamento em Fortaleza
No dia que o EdifÃcio Andréa desabou, a empregada doméstica Cleide Maria da Cruz, de 60 anos, deu um beijo em seu filho antes de sair de casa. Assim que chegou ao serviço, viu funcionários trabalhando em uma das colunas de sustentação do prédio e até comentou com o porteiro como aquilo era perigoso. Ela entrou na casa da patroa por volta das 10h e foi para a cozinha preparar um café. Mal terminara de tomar a primeira xÃcara quando tudo ruiu.
"Era uma tragédia anunciada", resume o motorista de aplicativo Leandro Carvalho, de 39 anos, o filho de Cleide, uma das sete vÃtimas resgatadas com vida do desabamento que ocorreu na manhã de terça-feira, 15, em Fortaleza. O prédio de sete andares, onde moravam 13 famÃlias, ficava localizado na Rua Tibúrcio Cavalcante, no DionÃsio Torres, bairro nobre da capital cearense. Até o momento, o Corpo de Bombeiros confirma quatro mortes. Sete pessoas seguem desaparecidas - entre elas, a patroa de Cleide.
Carvalho conta como sua famÃlia e a dos moradores do EdifÃcio Andréa eram próximas: a mãe trabalhava para eles há 21 anos. Em casa, ligou a televisão e soube que havia acontecido um desabamento na região. Não teve dúvidas de qual prédio era. "Se a gente tivesse na varanda, de vez em quando caia um pedaço de revestimento", relata.
Ele diz que sua mãe sempre voltava para casa com histórias que denunciavam a degradação do prédio, como janelas tortas ou portas que paravam de fechar por causa do desnÃvel do chão. O motorista diz que situação era assim há pelo menos 14 anos. "Minha mãe tá bem, mas e quem tá lá? Porque as pessoas se recusaram a fazer uma reforma, se recusaram a gastar um dinheiro."
Cleide Maria teve uma fratura exposta na perna e passou por cirurgia ainda na terça. Está na enfermaria do Instituto José Frota (IJF), com quadro estável. Além dela, Gilson Moreira, de 53 anos, também está internado no hospital. Ele fraturou as duas pernas e passou por duas cirurgias até o momento.
Das outras vÃtimas resgatadas com vida, duas foram liberadas: Fernando Marques, de 20 anos, e João Ãcaro Coelho, de 35. Antônia Peixoto, de 72 anos, encontra-se em estado grave no hospital OtoclÃnica, da rede particular, mesmo local em que está Davi Sampaio, de 22 anos, em situação estável. Francisco Rodrigues Alves, de 59 anos, aguardava transferência para o IJF na tarde desta quarta-feira, 16.
Atendimento
Próximo ao local do desabamento, um edifÃcio cedeu espaço para atendimento aos familiares das vÃtimas, além de auxÃlio aos voluntários e bombeiros. Conforme a professora de enfermagem da Universidade de Fortaleza (Unifor), Isabela Bonfim, há psicólogos, psiquiatras e enfermeiros no local.
"A espera por notÃcias está mexendo muito com eles. Como hoje foi a tarde inteira sem resgate nenhum, alguns tiveram crises, sÃndrome do pânico e desmaios. Está muito complicado", disse a docente, que participa da equipe de auxÃlio voluntariamente. Os familiares recebem informações apenas dos Bombeiros e de integrantes da Defesa Civil. É a partir deste contato que é realizado a identificação das vÃtimas.
Fonte: Estadão Conteúdo