04/03/2021 13h30
Transmissão descontrolada de vírus pode fazer do Brasil 'celeiro' de variantes
A disseminação sem controle do novo coronavÃrus no Brasil está deixando cientistas nacionais e estrangeiros em alerta sobre o impacto que isso pode ter sobre a pandemia como um todo, em especial no surgimento de novas variantes do Sars-CoV-2. Uma preocupação é que o PaÃs se torne uma espécie de "celeiro" de mutações, dificultando ainda mais o combate à covid-19.
Quanto mais o vÃrus circula, e se replica dentro dos seres humanos, maior a chance de ele acumular mutações e gerar novas variantes. É um processo que faz parte da natureza desse organismo, mas é favorecido em cenários de descontrole como o que vemos no Brasil, que enfrenta o pior momento da pandemia em um ano em meio a um relaxamento das medidas de segurança. Enquanto o número de casos e de mortes vem caindo em várias partes do mundo, aqui só tem subido.
Somente nesta quarta-feira, 3, foram registrados mais de 74 mil novos casos, o maior valor em todo o mundo, e 1.840 mortes, recorde desde o inÃcio da pandemia no PaÃs. Os Estados Unidos tiveram cerca de 60 mil novas infecções.
Nesse movimento de evolução do vÃrus, de vez em quando podem aparecer variantes muito diferentes, como é o caso da P.1, que surgiu em Manaus, e também das originadas no Reino Unido e na Ãfrica do Sul. Por causa disso elas são chamadas de VOCs (variantes de preocupação, na sigla em inglês). Em geral, sabe-se que vÃrus, no decorrer de uma epidemia, podem apresentar de uma a duas mutações por mês. No caso da P.1 e das demais, foram cerca de 20 de uma tacada só. Por isso elas preocupam.
O motivo para isso ocorrer ainda não é bem compreendido pela ciência. São como os acidentes de avião, compara a imunologista Ester Sabino, pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical da USP. "É uma sucessão de eventos raros. Há milhares de aviões no ar e uma hora ocorrem vários erros e um cai. Mas quanto mais aviões estiverem no ar, maior a chance. Ter 20 mutações em um mês é inesperado. Alguma coisa aconteceu e a gente não entende bem", afirma.
A cientista - que está colaborando com estudos que buscam entender a transmissibilidade da P.1 e como ela pode escapar de anticorpos, permitindo assim a reinfecção - pondera, no entanto, que a variante só se torna um problema quando, além de adquirir muitas mutações, ganha espaço para infectar muitas pessoas. "A P.1 é realmente mais transmissÃvel. Se não tomar cuidado, a chance é maior de se contaminar com ela", diz.
Ainda não há evidências para dizer se esta variante tomou conta da epidemia no Brasil nem se é a responsável pela explosão de novos casos observada na maior parte do PaÃs. Sabe-se que a P.1 é a principal linhagem em Araraquara (interior de São Paulo) e em Porto Alegre - cidades que viram seus sistemas de saúde lotarem -, e em Manaus, onde o colapso dos hospitais levou pacientes a morrerem por falta de oxigênio. Apesar do avanço das variantes, o Brasil reduziu no começo do ano o número de sequenciamentos genéticos, essencial para rastrear as cepas.
O virologista Mauricio Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, reforça a ressalva feita por Ester de que o simples fato de a variante com mais mutações surgir não pode ser considerada a única explicação para o cenário de caos que se instalou no PaÃs."Estamos dando oportunidade para esse acaso acontecer", afirma ele.
"É muito conveniente para a sociedade, polÃticos e autoridades afirmarem que a culpa é da variante mais transmissÃvel. Como se tivessem feito tudo para conter o problema, mas a variante tomou conta da cidade. Se tivéssemos tomado as medidas de segurança, não teria acontecido. A forma de prevenir é a mesma: distanciamento social e uso de máscara. O fato é que damos toda a oportunidade do mundo para que o vÃrus gere a maior quantidade do mundo de mutações", diz.
Nogueira explica que o surgimento das variantes é matemático. "A cada X multiplicações, vai ter mutação. Quanto mais multiplicar, mais variantes vai gerar. Agora no Brasil é onde o vÃrus mais está se multiplicando, é onde já há o maior número de novos casos por dia. Se essa variante tem a oportunidade de ser transmitida quando a pessoa onde a mutação surgiu pega um avião lotado, vai ao cinema, ao restaurante... aà estamos nos tornando um celeiro de variantes e distribuindo-as à vontade dentro do PaÃs", alerta.
Para o virologista Felipe Naveca, pesquisador da Fiocruz Amazônia à frente dos estudos que mostraram a prevalência da P.1 em Manaus e como a linhagem é mais transmissÃvel, esse é um risco que pode ocorrer onde houver o descontrole.
"O Brasil e todos os paÃses que deixaram o vÃrus correr solto estão sendo incubadoras de novas variantes. Relatos nesta semana apontam para mais duas prováveis novas variantes de preocupação nos Estados Unidos: na Califórnia e em Nova York. Em todos os paÃses com esse discurso de que devemos deixar o vÃrus circular para dar imunidade (de rebanho), a gente está vendo o que está acontecendo", comenta.
De acordo com o pesquisador, nos últimos três ou quatro meses houve aceleração da evolução do vÃrus. "Isso está claro. Não somos só nós, todos os grupos de pesquisa estão mostrando isso. O surgimento da linhagem do Reino Unido, da Ãfrica do Sul e do Brasil - com algumas mutações em comum relacionadas ao escape de anticorpos e a maior transmissão - mostram que o vÃrus deu um salto de evolução", diz Naveca.
"Então, a chance de termos novas variantes cada vez mais adaptadas ao ser humano é muito grande se a gente continuar dando essa liberdade para o vÃrus. A gente precisa urgentemente diminuir a transmissão do vÃrus", frisa.
Fonte: Estadão Conteúdo