03/11/2021 08h11
Txai Suruí, a indígena que falou na COP-26
Os indÃgenas Paiter Suruà comemoravam o ritual MapimaÃ, que festeja a criação do mundo, quando o lÃder Almir Suruà pôs a filha de seis anos em cima de um tronco de árvore e anunciou que ela seria uma grande lÃder indÃgena. No centro do tronco, estava Txai SuruÃ, na época uma criança que já acompanhava os pais nas excursões pela floresta para defender o território.
Dezoito anos após o anúncio do seu pai, Txai Suruà discursou anteontem na abertura da 26ª da Cúpula do Clima em Glasgow, na Escócia. Em dois minutos, ela citou os ensinamentos do pai em ouvir a natureza, disse que os indÃgenas possuem "ideias para adiar o fim do mundo" (tÃtulo de um dos livros de Ailton Krenak) que devem ser ouvidas e encerrou o discurso com um verso de A vida é desafio, dos Racionais MCs: "É necessário sempre acreditar que o sonho é possÃvel".
O discurso foi feito diante de mais de 100 chefes de Estado. Aos 24 anos, Txai foi a única indÃgena da América Latina e única brasileira na abertura da COP-26, ao lado de lÃderes como o presidente americano Joe Biden e o premiê britânico Boris Johnson. "Os lÃderes precisam saber que o que estamos vivendo na Amazônia também é responsabilidade deles", disse ela.
LUTA
Filha do cacique Almir Suruà e da indigenista Neidinha Suruà - duas das lideranças indÃgenas mais conhecidas no PaÃs -, Txai aprendeu a importância de defender o território dos povos da floresta. Desde criança, ela vê os pais ameaçados de morte por garimpeiros e grileiros que invadem terras indÃgenas.
Em 2012, as ameaças contra os pais de Txai se tornaram tão graves que a famÃlia precisou andar escoltada pela Força Nacional. Na época, se sentia uma prisioneira. "Ela dizia que preferia morrer do que estar o tempo todo com a polÃcia, porque aquilo não era liberdade e não era justo viver assim por defender o território", relembrou a mãe, Neidinha SuruÃ.
Nos últimos anos, as tensões entre indÃgenas e invasores de terras (em sua maioria, grileiros e garimpeiros) voltaram a aumentar. O pai de Txai, o cacique Almir SuruÃ, chegou a ser alvo de inquérito da PolÃcia Federal por causa de crÃticas ao governo federal - foi arquivado depois. Já o amigo de infância, Ari Uru-Eu-Wau-Wau, foi assassinado em 2020. "O Brasil precisa mudar radicalmente se quiser salvar o planeta", disse Txai.
ATUAÇÃO
A violência não intimida Txai, que costuma ir a áreas de conflitos entre indÃgenas e grileiros. Como estudante de Direito, atua no núcleo jurÃdico da Associação de Defesa Etnoambiental - Kanindé, para povos da Amazônia. No inÃcio do ano, também criou o Movimento de Juventude IndÃgena de Rondônia, que reúne mais de 1,7 mil jovens. A formação de Txai, porém, não se encerra na sabedoria dos povos indÃgenas. Uma das suas referências são os Racionais MCs. Na infância, ouvia artistas consagrados como Chico Buarque e Milton Nascimento.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo