01/06/2018 07h41
Um mês após tragédia, acampamento no Paiçandu continua sem previsão de fim
Passado um mês do incêndio e desabamento do EdifÃcio Wilton Paes de Almeida, que deixou sete mortos no centro de São Paulo, ainda não há solução oficial à vista para o acampamento de sem-teto que surgiu na sequência no Largo do Paiçandu. Segundo dados da própria Prefeitura, 126 famÃlias, algumas com até cinco crianças, se amontoam em barracas, em meio a lixo e roupas sujas.
"A gente fica aqui e eu estou esperando que venham dar moradia para a gente. Disseram que vão dar no dia 13", disse a desempregada Deise da Silva Rodrigues, de 32 anos, mãe de cinco filhos, a mais nova ainda sendo amamentada, ao repetir alguns dos boatos que correm entre as barracas.
Deise já recebe auxÃlio-moradia da Prefeitura, por ter perdido a casa em um incêndio ocorrido na Favela do Moinho, na Barra Funda, há três anos. Usava parte do dinheiro para viver na ocupação. Ao perder o lar para o fogo pela segunda vez, tenta sobreviver mantendo as crianças perto de vista e esperando ajuda pública.
A Prefeitura admite que existe um impasse sobre o atual acampamento e destaca que a maior parte das vÃtimas da tragédia já foi atendida. O posicionamento foi dado com base em visitas da Assistência Social concluÃdas um mês antes do incêndio, nas quais foram cadastradas 171 famÃlias no local - com vistas a uma futura desocupação. Do cadastro prévio, 144 famÃlias foram localizadas. "Algumas já vão receber o segundo cheque (de R$ 400 de auxÃlio-aluguel)", disse o secretário da Habitação, Fernando Chucre.
As 126 famÃlias atualmente no Largo não estão nessa lista. Para elas, "o que a Prefeitura pode fazer é todo dia ir lá oferecer abrigamento". "É a ferramenta que temos", ressaltou Chucre.
Por noite, a Prefeitura paga 60 pernoites para vÃtimas do incêndio. E soluções menos negociadas estão fora da mesa. "Existem garantias individuais de que o cidadão pode permanecer nos lugares. Não tenho, como força de Estado, falar 'vem aqui e saÃ'", disse o secretário da Segurança Urbana, José Roberto Rodrigues.
Experiência
"Nesse tipo de caso, é comum que você tenha um acidente que envolva 100 (pessoas) e apareçam 300 se dizendo morador", afirmou o secretário, ao justificar a decisão. Mas Chucre admite que parte da ocupação do Wilton tinha famÃlias com "perfil transitório" - o que é um complicador.
"Uma famÃlia em algum momento pode ter passado por aquele edifÃcio por um dia, uma semana, por um perÃodo indeterminado. Não temos controle sobre esse perÃodo." Por causa disso, segundo ele, há 77 casos que estão sob análise, e deverão receber o benefÃcio a partir do mês que vem.
Mesmo assim, a inclusão nos programas não é garantia de que o acampamento se desfaça. Há 26 famÃlias, por exemplo, que estão recebendo o benefÃcio e permanecem lá, conforme a própria administração municipal. "A única coisa que quero é trabalhar. Sou segurança. Mas preciso ter um endereço para dar para o patrão", diz Keliane Mendes da Costa, de 34 anos, que já trabalhou como manicure e como segurança.
Como ela, muitos usam o benefÃcio municipal como "um complemento de renda", nas palavras do secretário. Não existe auditoria sobre os valores ofertados, e a Prefeitura também não indica moradias para as quais pessoas possam se dirigir.
Rotina
As famÃlias de sem-teto passam o dia na praça, em barracas de camping doadas. Varrem a sujeira de um lado para o outro, fazem "gatos" (ligações irregulares) nos postes de iluminação para terem tomadas para os celulares e se dividem em uma cozinha coletiva. Essa está repleta de sacos de arroz e de feijão também doados. Mas não há nenhuma geladeira - "e aà não tem mistura", segundo uma das moradoras. Também não há banheiros com água corrente nem chuveiros, o que faz cada um se virar como pode para a higiene pessoal.
O ritmo de doações vem caindo. Os moradores só não sabem se é por causa da greve dos caminhoneiros - "ou pelo fato de as pessoas estarem nos esquecendo" - como dizem alguns.
Negociações
A Prefeitura, o governo do Estado e a União iniciaram negociações para viabilizar a construção de um empreendimento habitacional voltado para a população de baixa renda no terreno onde antes ficava o EdifÃcio Wilton Paes de Almeida.
A ação incluiria a liberação de verba para reforma de outros edifÃcios de posse da Prefeitura na área central da cidade. Os valores finais ainda estão em discussão, que não tem prazo para ser encerrada. As moradias não iriam para ex-moradores do Wilton. A Prefeitura seguirá a fila de moradia do MunicÃpio. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo