14/01/2022 18h30
'Uma perda para a humanidade', diz Unesco sobre casarões destruídos em ouro Preto
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) divulgou uma nota nesta sexta-feira, 14, em que lamenta a destruição dos casarões atingidos pelo desmoronamento em Ouro Preto e os danos causados pelas chuvas a imagens de Aleijadinho do acervo de uma das seis capelas do Santuário do Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas. No comunicado, a diretora e representante da entidade no Brasil, Marlova Noleto, destaca a necessidade de ações preventivas e coletivas para a proteção do "nosso patrimônio cultural comum, que tem valor excepcional para todo o mundo".
Os centros históricos (incluindo edificações e acervos) de ambos os municÃpios de Minas Gerais são considerados patrimônio mundial desde os anos 1980. "O desastre ocorrido em Ouro Preto, a primeira cidade brasileira inscrita na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, constitui uma perda para a humanidade", disse Noleto.
A Unesco afirmou que reportou ambas as situações ao Centro do Patrimônio Mundial, que monitora a situação dos locais reconhecidos como patrimônio mundial, e à área de Cultura e Emergências da organização. Além disso, apontou estar em contato com o Iphan para a "implementação de importantes projetos de cooperação técnica na área de proteção do patrimônio cultural, para prestar apoio técnico e contribuir com o governo brasileiro no que for necessário".
A diretora ressaltou que medidas protetivas são ainda mais importantes em meio ao avanço das mudanças climáticas. "Os cada vez mais frequentes desastres por causas naturais devem nos alertar em relação à s mudanças climáticas que já estão acontecendo e nos mobilizar a favor de polÃticas coordenadas de proteção, mitigação de desastres e planos de gestão adequados."
Em Congonhas, as imagens sacras danificadas foram esculpidas em madeira por Aleijadinho, ainda no perÃodo colonial. As esculturas foram afetadas pela água e umidade dos últimos dias. O acervo estava em uma das capelas que integram o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, que reúne ao todo 66 esculturas em tamanho real de sete momentos ligados à Paixão de Cristo.
O conjunto atingido reúne imagens relativas à Santa Ceia, com Jesus e os apóstolos distribuÃdas no entorno de uma mesa. Em descrição feita pelo Iphan, há a descrição de que o acervo de 66 peças "compõem um dos mais completos grupos escultóricos de imagens sacras no mundo, sendo, sem dúvida, uma das obras-primas de Francisco Antônio Lisboa, o Aleijadinho". Segundo a Prefeitura de Congonhas, os itens foram cobertos com lona, após a identificação de goteiras, mas de forma "paliativa", enquanto aguarda instruções do Iphan.
Em Ouro Preto, o desmoronamento de terra do Morro da Forca atingiu dois casarões tombados e que estavam interditados há cerca de 10 anos. Um deles (o de dois pavimentos) era conhecido como Solar Baeta Neves e era apontado como o primeiro neocolonial do municÃpio. O imóvel teve o restauro entregue em 2010, pelo governo federal, porém foi desocupado anos depois por estar em área de risco e chegou a ser parcialmente atingido por outro deslizamento.
Na quinta-feira, 13, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento administrativo para investigar as causas do deslizamento que atingiu os dois casarios históricos. "O MPF vai apurar as circunstâncias em que o fato se deu e pedir esclarecimentos dos órgãos envolvidos na tutela dos referidos bens quanto ao motivo do incidente, dimensão dos danos e seus efeitos", apontou em nota.
Fonte: Estadão Conteúdo