09/04/2021 14h10
Vacinas não têm poder de controlar a epidemia isoladamente, afirma Dimas Covas
O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse, em entrevista Broadcast PolÃtico, do sistema de notÃcias em tempo real do Grupo Estado, que as vacinas, por mais eficientes que possam ser, não controlarão sozinhas epidemias de covid-19. Ele é um dos mais ferrenhos defensores de um rÃgido isolamento social, por ao menos quatro semanas, para frear curvas epidemiológicas do coronavÃrus. Mas admite a dificuldade de se adotar uma medida radical como essa, diante das pressões polÃtica e social.
Na avaliação do médico, o Brasil continuará a ser "o campeão mundial" de mortes por covid-19 e o ano de 2021 será marcado pela vacinação e luta contra a pandemia sem um controle centralizado e federal para o combate à doença. "Vacinas, isoladamente, não vão controlar a epidemia. A percepção é de que, antes de tudo, devemos combater a epidemia e usar os mecanismos básicos, com recursos que podem diminuir a mortalidade. Vacina não tem poder de acabar com vÃrus", disse ele.
Para Covas, o ritmo de geração de novas e sucessivas gerações de variantes do coronavÃrus é muito elevado neste momento. "E pode ser que a resposta vacinal à s primeiras variantes não sejam mais efetivas", disse. "Muito provavelmente o coronavÃrus vai se comportar como vÃrus da gripe, ocorrendo de forma endêmica com picos sazonais. É possÃvel que tenhamos necessidade de vacinações sazonais".
Negacionismo
Dimas Covas disse ainda que o negacionismo é um grande aliado do vÃrus causador de mais de 340 mil mortes. Para ele, além do presidente Jair Bolsonaro, parte da sociedade brasileira também tem culpa, ao negar a gravidade da doença, a efetividade de medidas de isolamento e adotar tratamentos sem eficácia.
"Estamos perdendo para o negacionismo. O grande aliado do vÃrus hoje e a grande contribuição para o pico explosivo é o negacionismo. A sociedade também está escolhendo isso", disse. "O lÃder, governante, tem uma parte importante (de culpa), inclusive na educação sanitária e, talvez, o maior exemplo vem do maior mandatário da nação", completou na entrevista.
O pesquisador atribuiu a declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, o motivo de o presidente Jair Bolsonaro ter se transformado de negocionista a defensor da vacina. "Ponto que foi o marcador foi quando o ministro Guedes, o todo-poderoso da Economia, disse que a economia só voltaria a crescer se houvesse vacinação em massa. Foi importantÃssimo uma alta autoridade da República admitindo que a vacinação era necessária, não por motivos sanitários, mas por motivos econômicos".
Para Covas, o negacionismo do governo federal desde o inÃcio da pandemia também causou gargalos para a produção da Coronavac, principal imunizante aplicado hoje no PaÃs, desenvolvido pelo Butantan e a chinesa Sinovac para o tratamento da covid-19. A dificuldade de importação do insumo farmacêutico tem prejudicado a produção da vacina, mas ainda não houve paralisação no fornecimento.
"O Butantan, em julho do ano passado, ofereceu 100 milhões de doses ao Ministério da Saúde, repetiu a oferta em agosto, setembro, e outubro. Fomos contratados em janeiro. Não é possÃvel decidir uma produção tão complexa como a da vacina em dois ou três meses", explicou.
Fonte: Estadão Conteúdo