30/09/2017 08h00
Vencedores do Nobel criticam Brasil por corte na ciência
Os cortes orçamentários em Ciência e Tecnologia "comprometem seriamente o futuro do Brasil" e precisam ser revistos "antes que seja tarde demais", segundo um grupo de 23 ganhadores do Prêmio Nobel, que enviou ontem uma carta ao presidente Michel Temer, recomendando mudanças na postura do governo com relação ao setor.
O documento, enviado por e-mail ao gabinete da Presidência, faz referência ao corte de 44% no Orçamento deste ano do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), assim como à perspectiva de um novo corte em 2018 - que deverá ser da ordem de 15%, caso o Projeto de Lei Orçamentária Anual enviado pelo governo ao Congresso seja aprovado como está.
"Isso danificará o Brasil por muitos anos, com o desmantelamento de grupos de pesquisa internacionalmente reconhecidos e uma fuga de cérebros que afetará os melhores jovens cientistas" do PaÃs, escrevem os pesquisadores.
A carta, à qual o jornal O Estado de S. Paulo teve acesso com exclusividade, é assinada pelo fÃsico francês Claude Cohen-Tannoudji (Nobel de 1977) e outros 22 laureados com o prêmio nas áreas de FÃsica, QuÃmica e Medicina nas últimas três décadas. "Sabemos que a situação econômica do Brasil é muito difÃcil, mas urgimos o senhor a reconsiderar sua decisão antes que seja tarde demais", conclui a carta.
Repercussão
"É uma iniciativa que mostra a importância da ciência brasileira e a gravidade da situação", disse o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich, que também recebeu uma cópia da carta. A Presidência da República foi procurada pela reportagem, mas não respondeu até as 21 horas de sexta-feira.
"A situação é trágica, não há outra palavra para descrevê-la", disse o pesquisador David Gross, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, vencedor do Nobel de FÃsica em 2004 e também signatário da carta. Ele prevê que muitos jovens pesquisadores brasileiros vão desistir da carreira cientÃfica ou migrar para outros paÃses, mais favoráveis à ciência.
"Eles vão embora e não voltarão", alertou. "É uma polÃtica estúpida, autodestrutiva", completou Gross, referindo-se aos cortes horizontais aplicados pelo governo em todas as áreas, sem definição de prioridades.
A ciência, de acordo com ele, é uma área que precisa de investimentos consistentes e de longo prazo para produzir resultados que são essenciais para qualquer sociedade moderna. "Não é algo que você liga e desliga sem ter consequências graves."
A carta dos laureados reproduz argumentos que vem sendo usados exaustivamente pela comunidade cientÃfica brasileira nos últimos anos. Em uma carta enviada à Presidência da República no inÃcio da semana, mais de 250 pesquisadores da área de Matemática pedem também a Temer que reconsidere os cortes orçamentários do setor.
"À fria luz dos fatos e além de qualquer partidarismo, repudiamos os repetidos e substanciais cortes de verba que sabotam o potencial transformador da ciência brasileira", diz o documento. Entre os signatários está o matemático Artur Avila, ganhador da Medalha Fields, considerada o Prêmio Nobel da Matemática.
Cortes
O orçamento deste ano do MCTIC é o menor de todos os tempos, com cerca de R$ 3,2 bilhões disponÃveis (depois do contingenciamento de 44% no inÃcio do ano) para o financiamento de pesquisas e pagamentos de bolsas em todo o PaÃs. Isso equivale a um terço do que o ministério tinha quatro anos atrás (antes de ser unificado com a pasta de Comunicações), e a proposta inicial do governo para 2018 é reduzir esse valor ainda mais, para R$ 2,7 bilhões.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo