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Opinião
12/04/2012 14h33

Coluna - Janelas do tempo Nadando em dinheiro

Nadando em dinheiro

Houve um tempo  em que convencionamos,  meu irmão mais velho e eu, apelidarmos de tempo do naemdi  (nadando em dinheiro).


Não aguentando mais as nossas brigas (antigamente, quando via  meus filhos brigando é que percebia o quanto meus pais devem ter sofrido com isto... ), papai chamou-nos e falou o seguinte:
− Vou dar algumas mercadorias da loja para vocês venderem em uma daquelas lojas não alugadas da Getúlio Vargas. A metade do lucro será dividida entre vocês.
Naquele tempo, usava-se vender as mercadorias pelo dobro do custo.


Assim, o lucro era de 100%. Destes, 50% ficariam para meu pai e os outros 50% seriam divididos entre meu irmão e eu. Sem dúvidas, para pessoas de dez e doze anos, era muito. Ainda mais que a loja foi aberta sem armações ou balcões.


Eram os artigos de veranistas da loja de meu pai expostos no chão de onde futuramente estaria o velho Açougue Avenida, do Walter Cassiano, no andar de baixo do prédio onde viríamos a residir.


Melhor de tudo foi que o início de nossas atividades como comerciantes deu-se em plena temporada. Foi em 8 de janeiro de 1958. Durou até um dos últimos dias de fevereiro, logo depois do Carnaval. 


                                    
Como ganhamos dinheiro! Como esbaldamo-nos de gastá-lo! Daquela  vez, papai foi liberal. Não fiscalizou nada. A loja vendia muito. Não havia nenhuma  de artesanato na Getúlio Vargas. Parecia um sonho, aquela chuva de dinheiro. Frequentávamos todos os bares da cidade, não para beber, mas para tomarmos refrigerantes, comprarmos todas as balas, doces e chocolates com que sempre sonhamos e que nunca podíamos comprar.


Hoje, com toda a liberdade que existe, seria um sonho para crianças desta idade, pensemos há mais de cincoenta anos, como foram os dias do naemdi.
Acho que o papai estava tão cheio das brigas ou com tanto movimento em seu bazar que se esqueceu de fiscalizar esta parte. Eu chegava a convidar pessoas bem mais velhas do que eu para tomarem cafezinho ou um refrigerante no Bar Santista, que era ao lado de nosso estabelecimento. Uma verdadeira orgia de gastos.


Em qualquer profissão é preciso ter muita paciência e houve um fato que ficou marcado: Os sapatos e sandálias, antigamente, vinham com o preço impresso, em baixo relevo, na própria sola de couro. O governo não permitia que se cobrassem mais do que o que estava marcado e nem se usava fazer desconto.


Era como se fosse uma tabela dos cigarros, que ninguém discutia. A sandália de salto baixo, tinha o preço de 210 cruzeiros e a de salto alto, 320. O lucro, no caso das sandálias, não era tanto. Talvez porque o governo imaginasse que era um gênero de primeira necessidade e não quisesse que fosse muito caro.  Assim, todos pagavam e não discutiam. Uma vez, uma ricaça, de origem árabe, de São Lourenço, dona de uma das maiores fortunas da cidade, passou e resolveu experimentar uma sandália de salto baixo.


Deu um trabalho danado, na escolha. Todos os tipos ela queria ver, experimentar e analisar. Pedia vários tamanhos, eu tinha que colocar em seus pés, usando, às vezes, calçadeira. Ficou, no mínimo uma hora, até se decidir. Eu imaginava que, por ser tão rica, ou dar-me-ia uma bela gorjeta ou levaria mais de um par de sandálias


.  
No final, ela escolhera uma sandália, depois de muita indecisão. Custava, como disse, 210. Quando ela soube o preço, passou mais meia hora, pechinchando para que eu deixasse por 200. Respondi ser impossível, era tabelado, ninguém nunca pedira e não podia e o papai não ia gostar.


Já de posse do embrulho, ela jogou duas notas de cem cruzeiros no chão e foi-se embora, sem ordem minha, levando a sandália debaixo do braço. Nenhum argumento convenceu-a, quando fui atrás dela, de pagar-me o restante. Foi o único caso, na história do Bazar São José, em que alguém conseguiu pagar menos do que o marcado por um calçado.

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