Se for analisar a fundo, tenho certeza de que já conhecia nossa principal atração turística de outras eras, antes mesmo de nascer. Sempre senti isto e não posso fugir desta realidade, mesmo sendo católico.
Não sei de que maneira explicar a sensação, uma vez que não acredito em reencarnação. Acredito em algumas teorias kardecistas, mas não nesta. Sempre tive a sensação do déjá vu quando lá estive, o que ocorre até hoje.
Em criança, era uma alegria ir ao Parque. Nos primeiros tempos íamos todos pelas mãos de minha mãe, que era uma mestra na arte de contar histórias. Não cansava de escutá-las. Eram quase sempre histórias da família. Destas que passam de geração em geração e que hoje já estão nas gerações dos bisnetos dela.
Realmente, a história oral, embora se modifique com o tempo, é importante e sua essência fica para sempre.
(Ouvi dela, certa vez, o relato de que, quando eu tinha aproximadamente três anos, estando em visita ao antigo zoológico do Parque das Águas e parado a observar os macacos, avistei uma fêmea com o filhote nas costas.
Imediatamente, quis saber como é que nasciam macacos. Em vez de dizer que era a “cegonha que trazia” como “traziam” as crianças, começou a beliscar-me. Tentava desviar o assunto, envergonhada diante daqueles veranistas que também admiravam nossos “ancestrais”. Porém, quanto mais ela teimava em não responder, mais o Filipinho insistia: − mãe, não me belisca, fala mãe, como é que nasce macaco?
Será que ela não se lembrou de que não estava perguntando como os macacos eram gerados, mas apenas como é que nasciam? Bastava que ela me respondesse que saiam da barriga da macaca e talvez não se prolongasse o assunto...)
Ficaram na memória o antigo rinque de patinação, perto da Fonte Gasosa, o cavalinho − que eu chamava de vavalinho − de madeira onde costumávamos montar. O aviãozinho onde a cabeça era colocada para que fôssemos fotografados e, numa montagem boa aparecêssemos sobrevoando a cidade. Também aqueles globos brancos perto das Fontes Alcalina e Magnesiana. Felizmente estão lá até hoje.
Quando, já éramos mais crescidos começamos a ir sozinhos. Houve uma ocasião em que achei dez cruzeiros, uma boa quantia. Mas, ao abaixar para pegar a nota, minha irmã pisou, ao mesmo tempo, naquele dinheiro, alegando que também achara. Não houve nenhum problema.
Em vez de rasgarmos a nota e ficarmos cada um com meia nota, resolvemos que cada um ficaria com cinco cruzeiros e saímos satisfeitos.
Quando via meus filhos brigando por qualquer bobagem, imaginava que vivendo a mesma situação, iriam se engalfinhar ali mesmo, deixando a oportunidade de pegar o rico dinheirinho para um visitante mais tranqüilo...
Por volta de 1957, costumavam acontecer em épocas de temporada de verão, torneios de lancha e esqui aquático no nosso lago.
Eu estava sempre presente e achava muito bonito. Em uma destas ocasiões, nossa miss Brasil, a bela Therezinha Morango, estava aqui. Montaram várias mesas onde o público bebia e comia, à beira do lago, atrás do balneário, enquanto assistia ao torneio. A miss estava numa das mesas e o Filipinho correu para pegar seu autógrafo − num copinho de papel −.
Algumas vezes, ia ao Parque para pescar. Em outras, para paquerar. Estive lá em várias fases da vida, com os mais diversos colegas, daqui ou do Rio, tentando, e, às vezes conseguindo, fazer outro tipo de pescaria.
Em muitas outras vezes, principalmente no primeiro ano de medicina, em 1966, gostava de ir até lá para ficar lendo livros de poesias de Fernando Pessoa e João Maciel de Oliveira ou de Filosofia. Isolava-me num lugar qualquer, onde pudesse relaxar e esquecer o mundo exterior.
(Continua)