13/04/2021 13h42
ABI questiona crime contra a honra usado por Bolsonaro em ações contra críticos
A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) entrou com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para que a Corte declare inconstitucional o uso de crimes contra a honra para "coibir" a publicação de informações relacionadas a servidores, pessoas públicas e candidatos. Entre os pedidos da entidade, está a suspensão do artigo 141 do Código Penal, que dispõe sobre o crime contra a honra do presidente da República - dispositivo usado pelo governo Jair Bolsonaro para embasar investigações contra crÃticos e opositores.
Segundo a petição inicial, o objetivo da ação é "promover a proteção da liberdade de expressão, da liberdade de informação jornalÃstica, do direito à informação e de outros direitos dotados de máxima fundamentalidade, coibindo-se o emprego abusivo de procedimentos criminais para impedir o seu exercÃcio pleno".
No documento, a associação aponta que o contexto mundial atual é de "declÃnio da liberdade de expressão", ressaltando que no Brasil há uma "erosão da democracia, em que autoridades estatais buscam silenciar a crÃtica pública". A petição é assinada pelos advogados LuÃs Guilherme Vieira, Cláudio Pereira de Souza Neto, Antero Luiz Martins Cunha, Fernando LuÃs Coelho Antunes, Ana Carolina Soares e LuÃsa Capanema Vieira.
"Desde o inÃcio do atual governo, o Ministério da Justiça e da Segurança Pública vem requisitando a abertura de inquéritos policiais para apurar publicações de jornalistas e outras manifestações públicas crÃticas. Em 2019 e 2020, já foram abertos 77 inquéritos, muitos com base na Lei de Segurança Nacional, mas muitos também com fundamento nos artigos 138 a 145 do Código Penal. Dispositivos oriundos de perÃodos de exceção voltam a servir de fundamento para a prática de atos lesivos aos preceitos fundamentais da liberdade de informação jornalÃstica, da liberdade de expressão e da democracia", registram.
A ABI ressalta que os inquéritos mencionados provavelmente serão arquivados, como aconteceu no caso do sociólogo e professor Tiago Costa Rodrigues, responsável por dois outdoors em Palmas (TO) que comparavam Bolsonaro a um "pequi roÃdo". No entanto, a entidade alerta que, tais investigações, ainda que sem viabilidade jurÃdica, "servem ao propósito ilÃcito de silenciar jornalistas e demais membros da sociedade civil, produzindo um efeito resfriador do debate público".
"A instauração de inquéritos policiais, por si só, já desestimula gravemente o exercÃcio da liberdade de expressão. É o que ora parecem esperar os governantes que, diante de crÃticas, contra-atacam com inquéritos policiais. Para jornalistas vinculados a grandes órgãos de imprensa, aptos a lhes prover defesa técnica eficaz, o ônus pode ser suportável. Para jornalistas independentes e vinculados a pequenos jornais eletrônicos, é insuportável, desproporcional", registra a petição inicial.
A ABI ressalva, no entanto, que tal parâmetro não deve ser deve ser aplicado à hipótese de fabricação e propagação de fake news. "As fake news são concebidas com o propósito de ofender e atacar adversários. A propagação das notÃcias falsas é acelerada por meio do emprego de "robôs", potencializando a tendência das próprias redes sociais de fomentar a transmissão exponencial de mensagens disruptivas. Tais condutas exibem a gravidade que legitima o acionamento do sistema de justiça criminal. O emprego do direito penal não viola, na hipótese, o princÃpio da proporcionalidade", argumenta.
A entidade sustenta ainda que caso os pedidos sejam atendidos, os direitos da personalidade não ficarão desprotegidos, considerando que podem ser ajuizadas ações de direto de resposta ou de reparação de danos. Segundo a associação, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos defende que quando há violação dos direitos da personalidade pelo exercÃcio da liberdade de expressão, "a proteção deve ser cÃvel, não criminal".
"De acordo com o princÃpio da proporcionalidade, só é legÃtima restrição a direito fundamental quando não há outro meio menos gravoso para se alcançar a mesma finalidade. Na hipótese, não se justifica o acionamento do sistema de justiça criminal e a aplicação das sanções cominadas. A reparação de danos e o direito de resposta, institutos expressamente previstos no texto constitucional, são aptos a coibir o exercÃcio abusivo da liberdade de expressão", pondera a ABI na ação.
Fonte: Estadão Conteúdo