10/05/2018 18h20
AGU muda de posição e admite auxílio-moradia para juízes e promotores
Encarregada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de encontrar uma saÃda para o impasse em torno do auxÃlio-moradia de juÃzes e procuradores, a Advocacia-Geral da União (AGU) admitiu, em uma reunião com Estados sobre o tema, o pagamento do benefÃcio como verba indenizatória mesmo sem estar previsto em lei - o que contraria o posicionamento apresentado pela AGU até agora perante o STF.
A proposta, colocada na Câmara de Conciliação e Arbitragem que discute o assunto, foi feita pela Secretaria-Geral de Contencioso da AGU. A secretaria chegou a propor a possibilidade de levar para homologação do Supremo critérios para a concessão do benefÃcio, enquanto não for editada uma lei especÃfica. As informações constam de um e-mail enviado pela diretora da Câmara de Conciliação e Arbitragem da Administração Federal, Helena Leão Costa Tapety, após a reunião, fazendo um resumo da proposta apresentada pela secretaria.
Essa proposta foi apresentada ainda na fase de discussão na Câmara de Conciliação, diante da resistência dos Estados, que já deixaram claro que somente a edição de leis poderia levar à regulamentação dos pagamentos. Os Estados apontam a inviabilidade de uma conciliação na Câmara, alegando questões federativas, orçamentárias e de autonomia dos entes estaduais.
Em março do ano passado, a AGU enviou ao Supremo uma manifestação contrária ao pagamento de auxÃlio-moradia a membros do Ministério Público. Segundo a AGU, ao tratar o auxÃlio-moradia como verba indenizatória, o Conselho Nacional do Ministério Público permitiria "subtrair referida parcela pecuniária da incidência do teto constitucional e do regime de remuneração por subsÃdio". Em outras palavras, reconhecia que o pagamento era um jeito de burlar o teto constitucional, de R$ 33.763.
A AGU tem mantido sigilo sobre o conteúdo das negociações. Questionada sobre a mudança de entendimento quanto ao tema, afirmou não poder comentar sobre o que é negociado na câmara de conciliação porque está previsto sigilo. A reportagem também questionou que critérios a AGU poderia admitir para concessão de auxÃlio-moradia, e não recebeu resposta até a publicação desta matéria.
O pagamento, de R$ 4,3 mil, é garantido atualmente a magistrados e procuradores com base em resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), respectivamente - ambas baseadas em liminar do ministro Luiz Fux, do Supremo, em ações que discutem o tema. O ministro Fux foi quem tirou essas ações da pauta na véspera do julgamento marcado para março, a pedido da Associação de Magistrados Brasileiros, e enviou para conciliação na AGU, que prontamente acolheu a missão. A AGU deverá apresentar ao Supremo, ao fim das tratativas, alguma proposta de conciliação ou informar que não foi possÃvel chegar a uma solução para o caso.
Ao admitir a hipótese de pagamento do auxÃlio-moradia como verba indenizatória, a AGU admite que seja ultrapassado o teto constitucional, como já é feito atualmente, já criticado pelo próprio órgão no Supremo. A AGU não tem reconhecido o pagamento por não haver previsão legal, mas admitiu, diante dos Estados, a construção de um entendimento que dispensaria a necessidade da edição de leis formais sobre o tema.
Nos bastidores, houve crÃticas a essa proposta, que contraria o entendimento histórico do órgão. A avaliação é que, quando se admite dispensar a necessidade de previsão legal para concessão do auxÃlio-moradia, se contraria a tese da União até agora e a defesa da União fica prejudicada.
Nesta terça-feira, foi realizada a quinta reunião da Câmara de Conciliação e Arbitragem da Administração Federal sobre auxÃlio-moradia. Desta vez, estavam presentes entidades ligadas à magistratura - Associação de Magistrados Brasileiros (AMB), Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) e Associação dos JuÃzes Federais do Brasil (Ajufe) - e a membros do Ministério Público, a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR).
A Ajufe chegou a discutir a realização de uma greve no mês de março, como forma de pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) para não acabar com o pagamento do benefÃcio - arriscado de ser extinto em julgamento do plenário.
No orçamento geral da União, o valor anual do auxÃlio-moradia, considerando os Três Poderes, é de aproximadamente R$ 1 bilhão, segundo a ONG Contas Abertas - e aà não se incluem os gastos que os Estados têm com os juÃzes estaduais.
Fonte: Estadão Conteúdo