22/05/2022 14h50
'Bolsolão do lixo' vira um dos assuntos mais comentados do Twitter
A disparada na compra de caminhões de lixo pelo governo Jair Bolsonaro (PL) com preços inflados, revelada neste domingo, 22, pelo Estadão, ganhou a hashtag Bolsolão do Lixo e se tornou um dos assuntos mais comentados do Twitter, no inÃcio desta tarde. Foram 7.977 tuÃtes sobre o assunto em uma hora. Reportagem publicada hoje mostra que após Jair Bolsonaro se associar ao Centrão, a compra e distribuição de caminhões de lixo pelo governo saltaram de 85 para 488 veÃculos de 2019 para 2021.
Por volta das 13 horas, Bolsolão do Lixo havia superado 7,5 mil tweets e internautas passaram a publicar memes com o assunto. Um deles exibe um caminhão de lixo com um cifrão na traseira do veÃculo e o slogan do governo Pátria Amada Brasil na lateral. "No governo sem corrupção, tem corrupção até no lixo", escreveu uma conta no Twitter. Bolsonaro costuma dizer que seu governo não tem corrupção a despeito de diversas ilegalidades reveladas pela imprensa.
O investimento público federal com coleta de lixo, um serviço essencial para o bem-estar da população, virou foco de despesas milionárias crescentes e fora do padrão nos últimos anos. Avaliados com cuidado, esses gastos revelam transações difÃceis de entender, como a da cidade do interior de Alagoas que tem menos lixo do que caminhões para recolhê-lo ou a diferença de R$ 114 mil no preço de veÃculos iguais, comprados no espaço de apenas um mês - sem falar da presença de empresas fantasmas no meio das operações.
Durante dois meses, a equipe do Estadão analisou cerca de 1,2 mil documentos referentes à aquisição desses veÃculos com verbas do orçamento federal, incluindo relatórios, planilhas e vÃdeos, num total de 7,7 gigabytes de dados. A distribuição de caminhões compactadores de lixo é usada por senadores, deputados e prefeitos para ganhar a simpatia e o voto dos eleitores de cidadezinhas pobres, onde a chegada desse tipo de auxÃlio é visÃvel e faz enorme diferença. Até agora, o governo já destinou R$ 381 milhões para essa finalidade. A reportagem identificou pagamentos inflados de R$ 109 milhões.
A diferença dos preços de compra de modelos idênticos, em alguns casos, chegou a 30%. Em outubro passado, por exemplo, o governo adquiriu um modelo de caminhão por R$ 391 mil. Menos de um mês depois, aceitou pagar R$ 505 mil pelo mesmo modelo do veÃculo. Há casos também em que o governo recebeu veÃculos menores do que o comprado sem reaver a diferença de preço. Um municÃpio de 8 mil habitantes ganhou três caminhões compactadores num perÃodo de um ano e três meses, enquanto cidades próximas não têm nenhum. Até um beneficiário do auxÃlio emergencial ganhou licitações para fornecer caminhões de lixo para o governo.
Do jeito que está montada, a compra dos caminhões pelo governo para atender sua base no Congresso não segue nenhuma polÃtica pública de saneamento básico e não garante todas as fases da coleta de lixo. Caminhões são destinados a pequenas cidades sem qualquer plano para construção de aterros sanitários, como determinado em lei. No PiauÃ, por exemplo, o lixo coletado é jogado em terrenos a céu aberto em 89% das cidades. Mesmo assim, a prioridade dos polÃticos do Estado foi a aquisição dos veÃculos.
Fonte: Estadão Conteúdo