07/04/2019 08h10
Conservadores tentam capturar agenda da esquerda
O casebre de João Paulo Maia e Darlene Rosa é um dos primeiros a despontar na estrada de terra que se desenrola por 60 quilômetros do centro do municÃpio goiano de Cavalcante até o povoado quilombola de São Domingos. Cercados pelas paredes de tijolo de barro e sob o teto de zinco e palha, eles criam Tarles, de 8 anos; Rixon, de 6 anos; e Elismax, que chegou há seis meses. Na cozinha, separada do quarto por um lençol, o fogão trabalha quando há dinheiro para o gás. Um pequeno isopor ajuda a manter o que é possÃvel comprar. Não costuma ser muito.
O almoço quase sempre é arroz, feijão e chuchu. Não há banheiro na casa. A energia elétrica ali ainda não chegou. Falta muito. Mas não sonhos. "É tanta coisa que a gente precisa", diz João Paulo, que tenta fazer bicos em obras ou no roçado para encorpar a renda do casal, que vive dos R$ 212 que chegam do Bolsa FamÃlia. O avô, João Francisco Maia, de 74 anos, mora com a famÃlia. "Já tive vontade de sair daqui, mas pensei: é nossa terra natal, temos que gostar".
No recém-criado Gabinete de PolÃticas Sociais do governo estadual, técnicos pesquisam o que mais falta à s famÃlias pobres de Goiás e planejam como melhorar a vida delas. O gabinete, que reúne cinco secretarias e a equipe da primeira-dama, foi umas das primeiras iniciativas de Ronaldo Caiado. Liderança do DEM, ele integra um grupo de governantes conservadores que estão dando prioridade a uma causa associada, desde a ascensão do lulismo, a seus adversários do PT: a inclusão social.
O presidente Jair Bolsonaro (PSL), sÃmbolo da nova direita no PaÃs, ainda não tem bandeira clara na área social, mas parece aos poucos entender que tem aà um flanco a proteger. Estreou seu governo batendo na tecla da reforma da Previdência, mas correu para anunciar nas redes sociais a concessão do 13º para os beneficiários do Bolsa FamÃlia como uma das metas realizadas de seus cem primeiros dias de governo. O programa, que se tornou a cara do governo Lula e da esquerda, acaba de ganhar impulso da direita que almeja se firmar no poder.
No dia seguinte ao anúncio, o lÃder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), compartilhou nas redes sociais um meme com a foto de Bolsonaro usando um chapéu de cangaceiro e tendo atrás o cartão do Bolsa FamÃlia contendo o slogan do seu governo: "Pátria Amada Brasil". "Assim que se faz, presidente. Preocupação real com os mais pobres", escreveu. O traje tÃpico de Lampião foi muitas vezes usado por Lula.
Bandeira
Para o cientista polÃtico Leandro Consentino, professor do Insper, os esforços de polÃticos fora do campo do PT para se aproximar da população mais pobre refletem ainda a percepção de que, sem essa bandeira, a sustentação no poder será mais difÃcil. "Com Lula, criou-se a narrativa de que a esquerda é a grande provedora de polÃticas sociais, o que não é necessariamente verdade. Vimos o 'rouba, mas faz' ser substituÃdo pelo 'rouba, mas distribui renda'", afirma.
"Os polÃticos fora da esquerda estão agora voltando ao poder e, para que se mantenham lá, precisam acenar à população de baixa renda, que tinham perdido. Não se convence ninguém a votar em você falando só em responsabilidade fiscal e em choque de gestão", completa.
Em Goiás, Caiado diz que a assistência social precisa ser uma polÃtica de Estado, com projetos coordenados continuamente entre diversas secretarias e sem, ele garante, fanfarra de marketing. "Não queremos criar mais bolsas ou um novo programa. Queremos resolver o problema das famÃlias mais carentes." E não faltam famÃlias carentes em Goiás. Quase meio milhão dos 6,8 milhões de habitantes do Estado vivem em situação de pobreza. Muitos sem luz em casa, como o casal Adir Soares de Souza, de 63 anos, e Clarinda Gonçalves dos Santos, de 60, que também moram em Cavalcante. "A gente fica desacreditando. Estamos todos desconfiados com o sistema polÃtico, porque somos enganados", afirma Souza, que gastou a vida no roçado e acaba de se aposentar.
A estratégia do governo foi examinar não só a renda das famÃlias goianas. Criou-se o "Ãndice multidimensional de carência", que leva em conta as condições da casa onde vivem, a escolaridade de pais e filhos e também o quanto ganham por mês. O gabinete de Caiado já sabe, por exemplo, que há no Estado 9.557 domicÃlios sem banheiro, 25.854 sem água canalizada, 13.678 sem revestimento no piso e 20.073 com crianças fora da escola. O plano agora é traçar a forma mais rápida de melhorar a vida dessas famÃlias nas dez cidades com os piores indicadores.
Não há previsão de transferir dinheiro à s famÃlias. "Mesmo como alguma renda vinda do Bolsa FamÃlia ou de outro programa, há famÃlias que vivem num ambiente tão impróprio para um ser humano que não têm a mÃnima capacidade de reagir à quela situação", explica Caiado.
A metodologia para chegar ao "Ãndice de pobreza multidimensional" é propagada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Por trás dele, há a ideia de que a transferência de renda não é suficiente para resgatar as famÃlias da pobreza, caracterizada por um conjunto de "privações". São necessárias, assim, outras ações para que elas possam alcançar a mobilidade social.
Nessa abordagem, a estratégia para aplicar polÃticas sociais deve atender a critérios técnicos. Onde a situação está pior é onde o Estado deve agir. Reduto lulista, Cavalcante deu 85% de seus cerca de 4 mil votos para presidente a Fernando Haddad (PT) e foi uma das oito cidades em que Caiado perdeu na corrida para o governo goiano no ano passado - ele saiu vitorioso nas outras 238 cidades do Estado.
O ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (2004-2010) da gestão Lula, Patrus Ananias diz que essa tentativa dos conservadores até agora se limita a "propostas demagógicas e não a ações especÃficas". "Na prática tudo o que fizemos para os mais pobres foi desconstruÃdo", afirma. "É a mesma coisa com os sÃmbolos nacionais, usam bandeiras, hino, e na verdade estão entregando o PaÃs. Então, aguardo as obras. Por enquanto, estão só nas promessas, nas palavras vãs", critica o petista.
Impulso
A lógica de agir onde a situação é pior vinha sendo buscada pontualmente no PaÃs por governos locais, como os do PSDB em Minas Gerais e em São Paulo, e passou a ser estimulada no ano passado pela Câmara dos Deputados. Correligionário de Caiado, o presidente da Casa, Rodrigo Maia, criou uma comissão de estudos para analisar a legislação social do PaÃs e propôs a adoção do Ãndice por Estados e municÃpios. PolÃtico fluminense conservador, identificado com pautas econômicas, como a reforma da Previdência, Maia passou a dar ênfase em seus discursos à preocupação social.
"A chamada direita sempre esteve preocupada com a questão social. Este tornou-se um território sagrado de atuação dos governos petistas, mas as iniciativas de governos estaduais e municipais sempre existiram", diz Rodrigo Garcia (DEM), vice-governador de São Paulo.
À frente da prefeitura de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM) criou o programa Morar Melhor. Assistentes sociais identificam o que falta ao domicÃlio e produzem, em parceria com os moradores, um laudo com as obras escolhidas até R$ 5 mil. A prefeitura então faz o reboco na parede, por exemplo, ou constrói o banheiro.
Neto tenta resgatar a popularidade junto aos mais pobres que gozavam polÃticos tradicionais da direita, como seu avô Antônio Carlos Magalhães na Bahia, José Sarney no Maranhão e Paulo Maluf em São Paulo, grupo que expandiu por anos seus domÃnios nas classes baixas. A ascensão do PT ao poder e o sucesso dos programas de transferência de renda patrocinados por Lula em larga escala permitiram que a esquerda tomasse para si o discurso da preocupação social - e avançasse sobre o eleitorado carente nas periferias e no Nordeste. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo