01/03/2021 13h20
Crise e desilusão afastam jovem da política
Amanda e Giovanna, ambas de 20 anos, reconhecem a importância de acompanhar a vida polÃtica de suas cidades, mas se mostram desiludidas com os debates e ações até sobre medidas que podem ter impacto direto no futuro da vida delas. As duas integram uma estatÃstica que ilustra a dificuldade que é aumentar a participação de jovens na polÃtica. Um estudo realizado pelo Ibope e pela Rede Nossa São Paulo mostra que 67% das pessoas entre 16 e 24 anos na cidade não têm a mÃnima vontade de participar da vida polÃtica do municÃpio.
"É bem chato não querer participar", disse Amanda PorfÃrio, técnica em nutrição. "Eu sempre me imaginava no lugar deles (polÃticos) fazendo mudanças, mas acho que a polÃtica virou somente um nome." O ponto de vista é compartilhado por Giovanna Paulo, que trabalha como montadora numa fábrica de automóveis. "Sei que é importante acompanhar, mas não me vejo refletida na polÃtica."
A pesquisa foi realizada com 800 pessoas durante o mês de janeiro em São Paulo. Entre os mais jovens, 19% disseram ter "alguma vontade" de participar da vida polÃtica na cidade e 15% falaram ter muita vontade.
"O mundo polÃtico, historicamente, não dá abertura a essas pessoas, então a vontade que o jovem tem de querer transformar as coisas não encontra eco no mundo da polÃtica, por isso há essa desilusão", afirmou o assessor de Mobilização da Rede Nossa São Paulo, Igor Pantoja.
No levantamento, foi apresentada aos entrevistados uma lista de possibilidades de atuação que vai do simples compartilhamento de notÃcias sobre polÃtica na internet até participação em atos de rua e atuação em conselhos municipais, mas 42% dos jovens disseram não praticar nenhuma delas.
Assinatura de abaixo-assinados, compartilhamento de notÃcias em redes sociais e em aplicativos de mensagens e atuação no movimento estudantil estão entre as formas mais citadas de fazer polÃtica por esta geração. Nenhum desses pontos, entretanto, foi citado por mais de 22% dos entrevistados.
Para o cientista polÃtico Paulo Loiola, da Baselab, fatores ligados à economia ajudam a explicar esse distanciamento entre jovens e polÃtica. "Essas pessoas são um dos públicos mais impactados hoje pela falta de perspectiva, falta de renda e de emprego. Muitos estão ou desmotivados por essa falta de perspectiva ou ocupados demais com sua sobrevivência dividindo-se entre trabalho e estudo, sobrando pouco tempo útil a ser dedicado a esse tema", disse o cientista polÃtico.
Giovanna relatou que este é um "problema" observado em seus grupos de amigos. "A busca de oportunidades é o que ocupa a maior parte do tempo, já que há uma necessidade cada vez maior de ter experiência para ingressar no mercado de trabalho."
'Bolha'
Apesar da resistência de movimentos estudantis, de ações como ocupações de escolas e da formação polÃtica nos braços "jovens" de dentro dos partidos ou de grupos de renovação, a inserção desta faixa etária na polÃtica aparece com mais força e presença no ambiente online. Mas isso não se traduz necessariamente em qualidade do debate polÃtico ou mesmo em ação prática fora das chamadas "bolhas".
Em redes sociais e aplicativos como WhatsApp e Telegram, o "textão" em discussões sobre polÃtica são manifestações legÃtimas, mas analistas contestam seu caráter de diálogo. "O ambiente online favorece esse comportamento de muito 'textão', muita opinião, mas as redes nos mostram, em geral, conversas pontuais entre indivÃduos, não envolvem instituições, ideias, projetos", disse Pantoja. "No ambiente online, há um incentivo a se posicionar, dá uma sensação de poder a quem está produzindo o conteúdo", afirmou Loiola.
A pesquisadora Luiza Carolina dos Santos, da Diretoria de Análise de PolÃticas Públicas (Dapp) da FGV, aponta a necessidade de se ter em mente um diagnóstico do momento que vivemos e de como os jovens têm se relacionado com polÃtica. "A ação polÃtica hoje pode estar muito mais relacionada com pequenas ações cotidianas do que restrita a espaços institucionalizados, como partidos polÃticos, movimentos sociais ou outras formas de organização da sociedade civil", disse Luiza.
Um exemplo desta nova realidade são os espaços de debate polÃtico que emergiram nas eleições de 2020 nos Estados Unidos e no Brasil, onde polÃticos "invadiram" espaços como Discord e Twitch para fazer campanha enquanto dialogavam com o público gamer. "Todo lugar é lugar de discussão polÃtica", afirmou Luiza. "O que nos auxilia a compreender esse momento é muito mais qualificar as formas de participação hoje como formas legÃtimas. Isso exige repensar como institucionalizamos a participação polÃtica hoje, se podemos repensar possibilidades diferentes que possam dialogar com novas gerações, nos espaços dessas novas gerações." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo