04/02/2021 20h02
Funai muda critérios para definir quem é e quem não é índio
A Fundação Nacional do Ãndio (Funai) decidiu mudar os critérios usados no PaÃs para determinar quem é Ãndio ou não no Brasil. O reconhecimento como indÃgena, que até hoje era feito por meio de uma autodeclaração da própria pessoa, passa a incluir agora uma série de critérios, um tipo de prova que a fundação estabeleceu para "filtrar" aqueles que, em sua avaliação, não devem ser reconhecidos como pertencentes ao grupo étnico.
A decisão de publicar uma nova resolução com o objetivo de estabelecer novos critérios para a "autodeclaração indÃgena" tem gerado reação entre instituições e organizações que atuam na proteção dos povos originários. O Ministério Público Federal vê ilegalidade na medida.
Em sua resolução, a Funai afirma que os novos critérios passam a incluir: 1. vÃnculo histórico e tradicional de ocupação ou habitação entre a etnia e algum ponto do território soberano brasileiro; 2. consciência Ãntima declarada sobre ser Ãndio (autodeclaração); 3. origem e ascendência pré-colombiana (existente o item 1, haverá esse requisito, uma vez que o Brasil se insere na própria territorialidade pré-colombiana); 4. identificação do indivÃduo por grupo étnico existente, conforme definição lastreada em critérios técnicos/cientÃficos, e cujas caracterÃsticas culturais sejam distintas daquelas presentes na sociedade não Ãndia.
A Funai alega que, com a medida, pretende "padronizar e dar segurança jurÃdica" ao processo de autodeclaração indÃgena, como forma de "proteger a identidade indÃgena e evitar fraudes na obtenção de benefÃcios sociais voltados a essa população".
O Ministério Público Federal divulgou nesta quinta-feira, 4, em que recomenda à Funai a revogação imediata da resolução. O órgão afirma que a medida é inconstitucional e destaca que qualquer iniciativa relacionada ao reconhecimento da identidade indÃgena deve ser submetida à consulta livre, prévia e informada desses povos.
A nota pública foi elaborada pela Câmara de Populações IndÃgenas e Comunidades Tradicionais do MPF (6CCR/MPF). No documento, o colegiado ressalta que a Constituição Federal de 1988 garantiu aos povos indÃgenas o direito à autodeterminação, o que implica reconhecer sua organização social, costumes, lÃnguas, crenças e tradições. Dessa forma, "está no plano da autonomia dos povos indÃgenas a definição, implÃcita na própria cultura, de critérios de pertencimento ao grupo e, portanto, a capacidade de reconhecer quem são seus membros", afirma o MPF.
A Câmara lembra que a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é expressa ao estabelecer que "a consciência de sua identidade indÃgena ou tribal deverá ser considerada como critério fundamental para determinar os grupos aos que se aplicam as disposições da presente Convenção", ou seja, para determinar quem são os povos indÃgenas.
Nesta quinta-feira, 4, a Articulação dos Povos IndÃgenas do Brasil (Apib) também divulgou um comunicado, no qual afirma que a resolução 4, publicada no dia 22 de janeiro, tem a finalidade, na prática, de repassar à Funai a função de dizer quem é e quem não é indÃgena no Brasil, o que antes era um papel dos próprios indÃgenas, direito garantido pela Constituição Federal e por tratados internacionais assinados pelo Brasil, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.
"A Articulação dos Povos IndÃgenas do Brasil (Apib) denuncia este novo ato do governo federal, que declaradamente está contra os direitos dos povos e pede a imediata anulação da Resolução nº 4 da Funai. Alertamos para que todas as lideranças e organizações indÃgenas estejam atentas para essa medida e que exijam o cancelamento deste ato, que tem suas raÃzes na ditadura militar, época em que mais de 8 mil indÃgenas foram mortos no Brasil", afirma a Apib.
A avaliação da organização é de que o governo quer interferir no processo de autodeclaração indÃgena, sem sequer ter consultado os povos indÃgenas a respeito do assunto. "Com essa medida, a Funai violou tratados internacionais que são leis no Brasil e também a Constituição Federal. Querem que os povos indÃgenas sejam novamente TUTELADOS pelo estado brasileiro, como na década de 1970 quando existia o Serviço de Proteção ao Ãndio (SPI). Não podemos admitir mais um retrocesso", declara a Apib.
A única forma de reconhecimento dos povos indÃgenas, segundo a organização, é o autorreconhecimento, que é um processo individual e coletivo, pois a comunidade ou povo tem a autoridade de reconhecer os indÃgenas, independentemente do local onde vivem. "Qualquer critério estabelecido pelo Estado é autoritário, limitador e cientificamente ultrapassado e equivocado", afirma a associação. "Não importa se o indÃgena passou a viver na cidade, se tem formação universitária ou se ele mora no território tradicional. Um indÃgena sempre será indÃgena, independentemente das condições sociais ou do local que vive, mantendo vÃnculos com a sua ancestralidade, modos de vida e cultura."
Procurada pela reportagem, a Funai informou que "a resolução tem respaldo em diversos preceitos jurÃdicos e estudos realizados no PaÃs e foi elaborada com base em entendimento da Procuradoria Federal Especializada junto à fundação".
O presidente da Funai, Marcelo Xavier, afirma que, embora "se considere que a identidade e o pertencimento étnico não sejam conceitos estáticos, mas processos dinâmicos de construção individual e social, a ausência de critérios na heteroidentificação pode gerar uma banalização da identidade indÃgena".
"O sentimento de pertinência ou o direito de uma pessoa sentir-se indÃgena não há de ser negado, contudo, o fato jurÃdico apto a gerar direitos aos indÃgenas depende de critérios que precisam ser minimamente definidos. Para uma melhor proteção dos grupos e indivÃduos indÃgenas é necessário o aclaramento desses critérios, sob pena de tornar trivial e fútil a identificação indÃgena, diminuindo-lhe o valor", declarou Xavier, por meio de nota.
Marcelo Xavier afirma que "a resolução contribui para evitar fraudes e abusos que poderiam acabar subvertendo a função social" decorrente da identidade indÃgena. "Queremos evitar que oportunistas, sem qualquer identificação étnica com a causa indÃgena, tenham acesso à territorialidade ou a algum benefÃcio social ou econômico do governo federal", diz. "A Funai acredita que a polÃtica indigenista deve ser fundamentada em três pilares: dignidade, pacificação dos conflitos e segurança jurÃdica. Dessa forma, temos trabalhado para construir uma nova realidade para os indÃgenas, pautada no respeito e na proteção dos direitos dessas populações."
O especialista em etonologia Marcio Santilli, um dos fundadores do Instituto Socioambiental (ISA), vê uma ação coordenada do governo para reduzir a população indÃgena. "Há uma polÃtica de governo orientada para excluir a maioria da população indÃgena dos direitos reconhecidos pela Constituição, ao se atribuir o direito de dizer quem é Ãndio e quem não é, ao se negar a assistir as comunidades que vivem em terras com demarcações em curso e ao excluir das prioridades para vacinação os Ãndios que não vivem em terras indÃgenas", disse ao Estadão.
A Assessoria JurÃdica do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) produziu uma nota técnica sobre a resolução. Na avaliação da organização, a medida denota a intenção da Funai de "voltar a definir quem é ou não indÃgena, num retorno ao regime jurÃdico da tutela que embasava a atuação estatal antes da promulgação da Constituição de 1988, com o mesmo modus operandi do extinto Serviço de Proteção ao Ãndio (SPI)".
"Essa normativa consolida o racismo institucional contra os povos indÃgenas ao propor critérios sobre uma auto-identificação que é, por direito, subjetiva, não se reduzindo aos estereótipos ou caracterÃsticas fenotÃpicas, além de buscar cristalizar e segregar as identidades ditas pré-colombianas", analisa a Assessoria JurÃdica do Cimi.
Mourão
As regras da Funai, se aplicadas em 2018, poderiam afetar até mesmo o vice-presidente Hamilton Mourão, que se declarou indÃgena em seu registro de candidatura ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O ato foi registrado após Mourão afirmar, em sua primeira agenda pública como vice de Bolsonaro, que tinha herdado a "indolência" do Ãndio e a "malandragem" do africano, o que causou forte revolta reação dado o cunho racista de sua fala. Mourão declarou que seu pai é amazonense e que ele seria indÃgena.
Fonte: Estadão Conteúdo