07/06/2021 09h00
Governo distorce reportagem e insinua que 'The Economist' sugeriu matar Bolsonaro
O governo Jair Bolsonaro distorceu neste domingo, dia 6, a reportagem de capa da revista inglesa The Economist, que trata da pandemia no Brasil, e acusou a revista de sugerir o assassinato do presidente para superar a crise. Para desqualificar a publicação, uma das de maior prestÃgio internacional, o Palácio do Planalto atribuiu à revista uma suposta tentativa de "interferir em nossas questões domésticas" e de fazer apologia a um golpe das Forças Armadas contra Bolsonaro.
A Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) fez uma série de 23 postagens no Twitter distorcendo o conteúdo da reportagem "É hora de ir embora", cuja tradução foi publicada pelo Estadão. O governo não divulgou nota a respeito, apenas postou a série de mensagens na rede social.
A Secom rebateu a reportagem, cuja capa traz uma ilustração com Cristo Redentor "respirando" auxÃlio de um cilindro de oxigênio, o que remete a capas feitas em governos anteriores sobre o Brasil.
A Secom afirmou: "A narrativa do texto, em suma, é a seguinte: o presidente seria um ditador que estaria matando o próprio povo; seus apoiadores estariam dispostos à guerra civil e o Exército estaria disposto a intervir caso o presidente perca as próximas eleições. Segundo a tradução replicada pelo Estadão, aqui utilizada, The Economist chega a afirmar que a solução seria eliminar o presidente: 'A prioridade mais urgente é eliminá-lo', afirmam. Vejam bem: não falam apenas em vencer nas urnas, superar, destituir. Falam em eliminar. Estaria o artigo fazendo uma assustadora apologia ao homicÃdio do presidente?".
A interpretação do governo omite o contexto da reportagem, que é uma projeção da situação atual do PaÃs, com reflexos econômicos sociais e polÃticos do descontrole da covid-19, e a futura disputa eleitoral de 2022. No texto, a expressão "eliminá-lo", que encerra o artigo da Economist, vem no contexto das eleições presidenciais, sem nenhuma referência a atos violentos ou apologia a crime. A eliminação seria nas urnas. A expressão original, em inglês, é: "The most urgent priority is to vote him out" - que deixa clara a vinculação de derrotar o presidente por meio do voto.
"Em 31 de março, aniversário do golpe militar, seis potenciais adversários de Bolsonaro assinaram um manifesto dizendo que a democracia estava 'ameaçada'. Salvá-la exigirá mais do que manifestos. Os polÃticos precisam lidar com as reformas econômicas atrasadas. Os tribunais devem aplicar medidas severas contra a corrupção. E empresas, ONGs e brasileiros comuns devem protestar em favor da Amazônia e da Constituição. Mas será difÃcil mudar o curso do Brasil enquanto Bolsonaro for presidente. A prioridade mais urgente é eliminá-lo", afirma a revista.
Nas publicações, a Secom desqualifica a reportagem, e afirma que o artigo é insano, não tem credibilidade e nem ética. O governo também afirma que a revista repete um discurso de viés histriônico e oposicionista, e teria, segundo a interpretação governista, o objetivo de influenciar os rumos polÃticos do Brasil, por isso, atentaria contra a "autonomia" do PaÃs.
"Sob o disfarce de crÃtica ao presidente, a The Economist ataca a nação brasileira", afirma a Secom. "Ao mesmo tempo em que acusa o presidente de ser antidemocrático, conclama o Exército a insurgir-se contra seu chefe, em apologia a golpe antidemocrático", afirmou a Secom.
A Secom também acusa a revista de publicar "absurdos próprios" de "panfletarismo juvenil", quando reproduz prognósticos cientÃficos de que a parte da Amazônia pode estar em processo de degradação irreversÃvel e se tornar uma savana. Dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelaram há dois dias que o desmatamento na floresta no mês passado chegou ao pior Ãndice na série histórica, desde 2016. Foram 1.180 quilômetros quadrados de área desmatada, conforme os radares do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter).
O governo não detalha, em nenhum momento, dados para embasar seus argumentos e atrai para si iniciativas que não foram do presidente. Uma delas é a criação do auxÃlio emergencial, uma iniciativa do Congresso Nacional. A Secom também afirma que "Estados governados pela oposição incentivavam e festejavam o carnaval" no inÃcio da pandemia, omitindo que o presidente também viajou no feriado e sempre defendeu a retomada de atividades normais, contrariamente ao distanciamento social.
Em uma sequência de autoelogios sem dados, o Planalto também afirma que o governo Bolsonaro "investiu mais do que a média dos paÃses emergentes no combate à covid", "preservou milhões de vida" e que o PaÃs "está entre os cinco a garantir autossuficiência na produção de vacinas e é hoje um dos paÃses que mais vacina sua população".
O discurso se choca com a posição do Brasil em rankings internacionais, com a dificuldade de produção de vacinas em solo brasileiro - além de a demanda ser superior à oferta, ainda não há insumos que permitam autossuficiência e os laboratórios fabricantes dependem de importação.
Com 71 milhões de doses aplicadas, o Brasil está em quarto lugar no ranking total, mas é apenas o 66º na proporção de doses por 100 habitantes, que leva em conta o tamanho da população. Ao todo, o PaÃs superou a marca de 473 mil mortos pelo novo coronavÃrus, o segundo no mundo, estando entre os dez paÃses com mais mortes por milhões de habitantes.
Fonte: Estadão Conteúdo