14/07/2022 17h10
Governo ganha poder para doar de cesta básica a trator na campanha eleitoral
Sem alarde, o Congresso aprovou um pacote que abre caminho para mais uma farra de distribuição de recursos públicos neste ano eleitoral. Em menos de vinte minutos, os parlamentares votaram dois projetos que tornam ainda mais oculto o orçamento secreto, autorizam o governo a distribuir de cesta básica a tratores no meio da campanha e permitem ao Executivo tirar verba já reservada a um municÃpio para colocar em outro, de acordo com conveniências polÃticas. As medidas contrariam pareceres técnicos, lei eleitoral e até a Constituição.
As propostas foram aprovadas na terça-feira, 12, enquanto o Congresso estava mobilizado em torno de temas como a PEC Kamikaze, que permite ao governo conceder benefÃcios sociais no perÃodo eleitoral, e a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que define as regras para o orçamento do próximo ano. Uma delas chegou a ser votada sem que as alterações fossem nem sequer lidas em plenário. Como a análise foi simbólica, é impossÃvel saber como cada um votou.
Os congressistas ignoraram um relatório das consultorias da Câmara e do Senado, que considerou inconstitucional a mudança no destino final de recursos já empenhados. Segundo o texto aprovado, o governo pode retirar o dinheiro já reservado para uma obra e mudar o fornecedor que receberá o recurso, a localidade ou trocar o objeto da contratação sem nenhuma discussão ou planejamento.
Essas mudanças foram incluÃdas de última hora no relatório do projeto, apresentado pelo deputado Carlos Henrique Gaguim (União Brasil-TO), e os parlamentares votaram sem ler. O presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda precisa sancionar os projetos, mas, antes da votação, o Centrão já havia combinado o apoio do Planalto à s propostas.
Na prática, polÃticos que romperem com prefeitos de determinada cidade poderão agora punir a traição, realocando os recursos em outro municÃpio. No perÃodo eleitoral, a manobra tende a virar moeda de troca. Um prefeito pode, por exemplo, perder o dinheiro já reservado para sua cidade se um candidato a deputado ou a senador considerar que ele não entregou os votos prometidos. O artifÃcio aumenta o poder do congressista sobre o prefeito.
Técnicos do Congresso observam que a manobra fere princÃpios da Constituição, entre eles o que proÃbe uma despesa de ser alterada de um ano para outro sem a aprovação de novo Orçamento. Além disso, pagar um recurso para um credor diferente, ou para uma obra distinta da inicialmente autorizada, desconfigura o princÃpio do empenho na administração pública, que consiste em definir para onde vai o dinheiro, quem vai executar e o que de fato será entregue.
'Pedalada'
A artimanha foi chamada nos bastidores de "pedalada orçamentária" e preocupa especialistas, que veem a possibilidade de bilhões do Orçamento serem manipulados para atender a interesses polÃticos. O relator Carlos Gaguim justificou a manobra sob o argumento de que vai possibilitar a retomada de 20 mil obras paradas no Brasil, que estariam suspensas por problemas contratuais, ao permitir alternar o fornecedor ou a localidade. A solução para esse impasse, porém, seria cancelar o recurso e emitir uma nova nota de empenho, segundo especialistas.
"Não havendo amparo na Constituição e na Lei n.º 4.320/1964 para possibilitar que um credor possa ser pago à conta do orçamento anterior, quando esse não tiver sido originalmente indicado na nota de empenho e na correspondente inscrição dos restos a pagar, não se encontra justificativa para a alteração proposta", diz a nota da consultoria, elaborada antes da aprovação e ignorada pelos parlamentares.
PolÃticos mais experientes se disseram chocados com o artifÃcio. "Trocar o credor no exercÃcio (ano) seguinte... Gente, eu acho que eu não estou no Brasil, não", disse o deputado Mauro Benevides Filho (PDT-CE), que é economista e especialista em contas públicas.
Outra mudança aprovada no pacote do Congresso autoriza o governo a realizar doações, incluindo cestas básicas, redes de pesca, ambulâncias, tratores e outros maquinários agrÃcolas em plena campanha. A medida confronta a legislação eleitoral, que proÃbe essa prática. Em abril, o Congresso já havia estendido o prazo até julho. Agora, prorrogou até o final do ano. "Nós temos de mudar o que está lá na lei eleitoral. A lei eleitoral é que está errada", disse o deputado Hildo Rocha (MDB-MA) durante a votação. "Ah, bom, agora o argumento é maravilhoso", ironizou o lÃder da Minoria no Senado, Jean Paul Prates (PT-RN).
Supersecreto
No mesmo bolo de projetos, os parlamentares puseram mais uma camada de sigilo sobre os recursos do orçamento secreto. Até agora, não é possÃvel identificar os beneficiados com o esquema do toma lá, dá cá. Apenas o nome do relator-geral do Orçamento aparece associado a esse tipo de emenda. Com o projeto aprovado na terça, nem isso.
A ocultação do nome do relator-geral ocorrerá quando as emendas forem remanejadas para outra rubrica, chamada RP-2, sob o controle direto dos ministérios. Com isso, o Congresso dribla a determinação judicial que obriga a dar transparência para o manejo do dinheiro público.
Revelado pelo Estadão, o orçamento secreto vai garantir a um grupo seleto de deputados e senadores definir onde devem ser aplicados R$ 19 bilhões, no próximo ano, além das emendas a quem têm direito. O dinheiro é distribuÃdo pelos presidentes da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
O senador Marcos Do Val (Podemos-ES) disse ao Estadão que recebeu R$ 50 milhões em emendas por ter votado em Pacheco para a presidência do Senado. Foi a primeira vez que um parlamentar admitiu publicamente o critério de divisão do dinheiro.
ENTENDA
Textos aprovados ignoraram relatório
- Alterações após empenho de recursos: O projeto aprovado pelo Congresso permite ao governo mudar, de um ano para o outro, o municÃpio e até mesmo o fornecedor de uma obra que já teve o recurso empenhado, ou seja, garantido no Orçamento. A prática contraria a Constituição.
- Doações durante a campanha: O pacote aprovado autoriza, ainda, o governo federal a fazer doações de cestas básicas e de veÃculos como tratores e até a transferir emendas para entidades privadas no meio da campanha eleitoral. A prática contraria a legislação, que proÃbe esse tipo de repasse no perÃodo de campanha.
- Sem identificação: O Congresso também aumentou o grau de segredo do orçamento secreto, ao permitir que recursos das chamadas emendas RP-9 sejam alocados nos ministérios sem a identificação dos parlamentares beneficiados e até do relator-geral do Orçamento.
- Parecer: Os textos foram aprovados na terça, enquanto o Congresso discutia a PEC Kamikaze. Os congressistas ignoraram relatório das consultorias da Câmara e do Senado.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo