17/01/2019 21h02
Indígenas pedem auxílio do MPF contra medida que tira demarcações da Funai
Uma comissão de indÃgenas Guarani da Terra IndÃgena Morro dos Cavalos, localizada em Palhoça (SC), protocolou representação nesta quinta-feira, 17, para que o Ministério Público Federal "tome medidas cabÃveis" contra a MP 870/2019, do presidente Jair Bolsonaro, em 1.º de janeiro, a qual, no entendimento dos grupos indÃgenas Guarani Mbyá e Nhadéva, "retirou de forma abrupta e unilateral" a competência de demarcações de terras indÃgenas da Funai, transferindo-a para o Ministério da Agricultura.
Para os indÃgenas, a MP "infringiu o conceito primordial na alteração de polÃticas públicas, que seria a consulta aos povos indÃgenas do Brasil".
Também foi entregue uma nota contrária à MP, pelos representantes da Associação Nhemongetá, que congrega as diversas comunidades indÃgenas Guarani do litoral catarinense.
Os indÃgenas pedem que o Ministério Público Federal atue para que sejam aplicadas as normas constitucionais e seja assegurado o "princÃpio de segurança jurÃdica dos atos administrativos da administração pública".
Eles requerem instauração de inquérito civil para "investigar e monitorar os atos e processos de demarcação de terras indÃgenas que porventura venham a tramitar no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento". E solicitam a apuração de "eventual responsabilidade administrativa atentatória à moralidade administrativa e à democracia, e ofensa aos direitos culturais dos povos indÃgenas".
A situação criada pela MP 870, afirma o documento, "enseja medidas urgentes a fim de evitar risco de dano irreparável aos povos indÃgenas pela suspensão e/ou interferência polÃtica nos procedimentos demarcatórios, atingidos por eventual comportamento da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e seus respectivos subordinados".
Ao receber a comissão dos indÃgenas na sede do MPF em Florianópolis, a procuradora Analúcia Hartmann disse que o documento será analisado e encaminhado. "O Ministério Público vai examinar essas solicitações e não vai se omitir agora, como nunca se omitiu", afirmou.
Conforme a representação entregue ao Ministério Púbico Federal em Santa Catarina, haveria na medida assinada pelo presidente "flagrante vÃcio material" quanto aos requisitos formais.
"É entendimento do Supremo que não cabe controle de constitucionalidade quanto à relevância e urgência, por entender que seria invadir esfera discricionária do Poder Executivo."
Ainda, quanto aos requisitos materiais expressos na Constituição, deve haver controle, "pois legislar sobre determinadas matérias configura desvio de finalidade ou abuso de poder".
Alega o documento dos indÃgenas que deve ser aplicada aos fatos a alÃnea "A" do artigo 62 da Constituição, que determina a vedação do ato de legislar por medida provisória em matérias relativas à cidadania - "demarcar os territórios indÃgenas envolve matéria diretamente ligada à cidadania indÃgena e não pode ser objeto de medida provisória, sob o risco de causar dano irreparável a essas populações".
"Quando se fala em exercÃcio da cidadania dos povos indÃgenas, essa estará sempre ligada ao aspecto territorial, pois o modo de viver indÃgena é indissociável do seu território, organizado por eles há centenas, talvez milhares de anos. Enfim, a conquista da cidadania indÃgena passa necessariamente pela demarcação de suas terras, pela garantia de seus territórios", diz ainda o documento.
Argumentando em favor da atual estrutura da Funai, a representação entregue ao MPF diz que "quando se constrói todo um sistema jurÃdico voltado a atender as especificidades das populações indÃgenas, isso inclui órgãos federais com conhecimento cientÃfico que compreendam essas peculiaridades e que consigam identificar e demarcar os territórios indÃgenas para que estes possam exercer a sua plena cidadania".
Os documentos deverão ser encaminhados por cópia à 6.ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, que já está analisando a MP 870 e possÃveis medidas judiciais a serem adotadas em nÃvel nacional, bem como deverá fundamentar a instauração de inquérito civil na Procuradoria da República em Santa Catarina.
Defesa
A reportagem está tentando contato com o Ministério da Agricultura, mas ainda não obteve retorno.
Fonte: Estadão Conteúdo