24/05/2017 14h57
Lava Jato apresenta 400 documentos na ação sobre o sítio de Atibaia
A Procuradoria da República, no Paraná, anexou 415 documentos à nova denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Operação Lava Jato. O petista é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro nas obras de reforma e melhorias do sÃtio de Atibaia, interior de São Paulo.
Segundo a Procuradoria, a denúncia foi elaborada com base em depoimentos, documentos apreendidos, dados bancários e fiscais bem como outras informações colhidas ao longo da investigação. No material anexado pelo Ministério Público Federal estão fotos de objetos e fotografias da famÃlia no sÃtio, escritura e registro do imóvel, notas fiscais e relatórios da PolÃcia Federal.
Há também depoimentos de delatores, relatórios de comissões interna de apuração da Petrobras, do Tribunal de Contas da União e da própria Procuradoria, laudos de perÃcia da PolÃcia Federal, outras denúncias da Lava Jato, sentenças do juiz federal Sérgio Moro e matérias jornalÃsticas. Constam do acervo da Procuradoria, ainda, o resultado da eleição de 2002, em que Lula venceu o então candidato José Serra (PSDB), e agendas de Lula presidente.
A Procuradoria da República, no Paraná, acusa Lula de "estruturar, orientar e comandar esquema ilÃcito de pagamento de propina em benefÃcio de partidos polÃticos, polÃticos e funcionários públicos com a nomeação, enquanto presidente da República, de diretores da Petrobras orientados para a prática de crimes em benefÃcio das empreiteiras Odebrecht e OAS". A denúncia do Ministério Público Federal atribui ao petista "propina para o seu benefÃcio próprio consistente em obras e benfeitorias relativas ao sÃtio de Atibaia custeadas ocultamente pelas empresas Schahin, Odebrecht e OAS".
Como nas outras duas denúncias da força-tarefa, no Paraná, a Procuradoria aponta Lula "como o responsável por comandar uma sofisticada estrutura ilÃcita para captação de apoio parlamentar, assentada na distribuição de cargos públicos na Administração Pública Federal".
A denúncia afirma que o esquema ocorreu nas mais importantes diretorias da Petrobras, mediante a nomeação de Paulo Roberto Costa, Renato Duque e Nestor Cerveró, respectivamente, para as diretorias de Abastecimento, de Serviços e Internacional da estatal.
Por meio do esquema, estes diretores geravam recursos que eram repassados para enriquecimento ilÃcito do ex-presidente, de agentes polÃticos e das próprias agremiações que participavam do loteamento dos cargos públicos, bem como para campanhas eleitorais movidas por dinheiro criminoso.
Também foram denunciados José Adelmário Pinheiro Filho, pela prática dos crimes de corrupção ativa e lavagem de dinheiro; Marcelo Bahia Odebrecht e Agenor Franklin Magalhães Medeiros, pelo crime de corrupção ativa; bem como José Carlos da Costa Marques Bumlai, Rogério Aurélio Pimentel, EmÃlio Alves Odebrecht, Alexandrino de Salles Ramos de Alencar, Carlos Armando Guedes Paschoal, Emyr Diniz Costa Júnior, Roberto Teixeira, Fernando Bittar e Paulo Roberto Valente Gordilho, acusados da prática do crime de lavagem de dinheiro.
Segundo a denúncia, os valores ligados à Odebrecht e à OAS foram repassados a partidos e polÃticos que davam sustentação ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente o PT, o PP e o PMDB, bem como aos agentes públicos da Petrobras envolvidos no esquema e aos responsáveis pela distribuição das vantagens ilÃcitas, em operações de lavagem de dinheiro que tinham como objetivo dissimular a origem criminosa do dinheiro.
A força-tarefa aponta que "parte do valor das propinas pagas pela Odebrecht e pela OAS, no valor aproximado de R$ 870 mil, foi lavada mediante a realização de reformas, construção de anexos e outras benfeitorias no SÃtio de Atibaia, para adequá-lo à s necessidades da famÃlia do denunciado Luiz Inácio Lula da Silva, assim como mediante a realização de melhorias na cozinha do referido SÃtio e aquisição de mobiliário para tanto".
Também foi objeto de lavagem de dinheiro uma parte dos valores de propina oriunda dos crimes de gestão fraudulenta, fraude à licitação e corrupção no contexto da contratação para operação da sonda Vitória 10000 da Schahin pela Petrobras, a qual foi utilizada, por intermédio de José Carlos Bumlai, para a realização de reformas estruturais e de acabamento no SÃtio de Atibaia, no valor total de R$ 150.500,00.
A denúncia foi elaborada com base em depoimentos, documentos apreendidos, dados bancários e fiscais bem como outras informações colhidas ao longo da investigação, todas disponÃveis nos anexos juntados aos autos.
"Esta denúncia reafirma o compromisso do Ministério Público Federal com o cumprimento de suas atribuições constitucionais e legais, independentemente de qualquer consideração polÃtico-partidária, bem como com o combate incessante contra a corrupção, o mal maior com que se defronta a sociedade brasileira e que a impede de alcançar o seu desenvolvimento pleno e merecido", diz nota do Ministério Público Federal.
"A denúncia é mais um efeito da corrupção espraiada em todo o espectro do sistema polÃtico."
Defesa
O advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, divulgou a seguinte nota no dia 22:
"A denúncia apresentada hoje (22/05) pela Força Tarefa da Lava Jato contra Lula mostra uma desesperada tentativa de procuradores da República justificar à sociedade a perseguição imposta ao ex-Presidente nos últimos dois anos, com acusações frÃvolas e com objetivo de perseguição polÃtica. A nota que acompanhou o documento deixa essa situação muito clara ao fazer considerações que são estranhas à área jurÃdica e à s regras que deveriam orientar a atuação de membros do Ministério Público, como a legalidade e a impessoalidade.
A peça buscou dar vida à tese polÃtica exposta no PowerPoint de Deltan Dallagnol, para, sem qualquer prova, atribuir a Lula a participação em atos ilÃcitos, envolvendo a Petrobras, que ele jamais cometeu. Os procuradores reconhecem não ter qualquer prova de que Lula seja o proprietário do sÃtio, embora tenham repetido esse absurdo por muito tempo em manifestações formais e em entrevistas impropriamente concedidas à imprensa: "A forma de aquisição da propriedade e seu registro, mediante possÃveis atos de ocultação e dissimulação, não são objeto da denúncia".
Mas recorreram a pedalinhos e outros absurdos para sustentar a tese de que Lula seria o beneficiário de obras realizadas no local e que os valores utilizados seriam provenientes de supostos desvios ocorridos em contratos firmados pela Petrobras. A afirmação colide com todos os depoimentos já colhidos em juÃzo, até a presente data, com a obrigação de dizer a verdade, que afastam o ex-Presidente da prática de qualquer ato ilÃcito.
A Lava Jato age de forma desleal em relação a Lula, com acusações manifestamente improcedentes e com a prática de atos que são ocultados de sua defesa. Hoje mesmo, o ex-Senador DelcÃdio do Amaral reconheceu em depoimento prestado na 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba que participou no Mato Grosso de Sul de interrogatório solicitado por autoridades americanas com a participação do Ministério Público Federal e com representantes da Petrobras. O ato, embora relacionado à s acusações feitas contra Lula, não havia sido revelado e os documentos correspondentes ainda são desconhecidos.
A falta de justa causa para o recebimento da ação penal proposta nesta data é flagrante e um juiz imparcial jamais poderia recebê-la."
Fonte: Estadão Conteúdo