23/08/2019 12h20
Lava Jato vê diversas irregularidades em venda de parte da PetroAfrica para BTG
A nova fase da Operação Lava Jato deflagrada na manhã desta sexta-feira, 23, tem como alvo supostas propinas pagas no negócio de compra de metade da PetroAfrica - empresa de petróleo africana - pelo Banco BTG Pactual da Petrobras, em 2013, negócio que teria envolvido prejuÃzo de cerca de R$ 6 bilhões, segundo os investigadores.
A PolÃcia Federal tem como alvos o banqueiro André Esteves, a ex-presidente da Petrobras Graça Foster e o PT nessa nova fase denominada Operação Pentiti - termo italiano referente aos "arrependidos", equivalente a delatores, devido as informações fornecidas no caso pelo ex-ministro Antônio Palocci.
Cerca de 80 policiais federais cumprem 12 mandados de busca e apreensão em endereços de São Paulo (3) e do Rio de Janeiro (9), entre eles a sede do Banco BTG na capital fluminense. A operação não cumpre ordens de prisão.
As medidas foram autorizadas pela juÃza Gabriela Hardt, da 13ª Vara Federal de Curitiba, no Paraná.
A força-tarefa o informou que "a partir de análise de documentos apreendidos em fase anterior da operação Lava Jato, identificaram-se indÃcios de que os ativos foram comercializados em valor substancialmente inferior à quele que havia sido avaliado por instituições financeiras de renome no inÃcio do processo de venda".
As propinas em negócio de venda de 50% da PetroAfrica para o BTG Pactual já tinham sido citadas em outros depoimentos de delatores para a Lava Jato. Na ocasião, o banco informou por meio de nota que "a proposta do BTG Pactual, de US$ 1,5 bilhão por 50% da JV, foi a mais alta e considerada justa pelo assessor financeiro contratado pela Petrobras, Standard Chartered Bank".
"A operação de aquisição de 50% dos ativos da Petrobras Oil and Gas B.V. (POG) na Ãfrica pelo BTG Pactual E&P B.V., sociedade detida pelo BTG Pactual conjuntamente com diversos clientes, inclusive renomados fundos de investimentos estrangeiros, foi realizada em um leilão, para o qual foram convidados a participar diversos players do mercado (14 no total), vários dos quais participaram efetivamente do processo."
Em nota divulgada nesta sexta, o Ministério Público Federal informou que "verificou-se que, no inÃcio do processo, o preço desses ativos havia sido avaliado entre US$ 5,6 bilhões e US$ 8,4 bilhões. Ao final do processo, 50% desses ativos foram vendidos por US$ 1,5 bilhão em 2013, valor esse em flagrante desproporção com aquele inicialmente avaliado".
Segundo os procuradores, "apurou-se, ainda, que esse procedimento de venda foi permeado por diversos indÃcios de irregularidades". Entre elas, destacaram "a possÃvel restrição de concorrência, de forma a favorecer o BTG, o acesso pelo BTG a informações sigilosas, a aprovação da venda pela diretoria executiva em um dia e do conselho de administração no dia seguinte, sem que tenha havido tempo suficiente para discussão ampla de operação de valor tão elevado".
Segundo a PF, a investigação trata de fatos de diferentes inquéritos policiais e foi impulsionada pelo acordo de colaboração premiada do ex-ministro Antônio Palocci.
O delegado Luciano Flores de Lima, superintendente da PF no Paraná, afirmou que a nova fase não investiga o banco ou sistema financeiro, mas sim "fatos".
Propinas
Trata-se da segunda operação da força-tarefa nesta semana. Na quarta, 21, a PolÃcia Federal deflagrou a Carbonara Chimica, fase 63 da Lava Jato, para investigar a suspeita de pagamento de propina a dois ex-ministros dos governos Lula e Dilma por parte da Odebrecht. A operação também envolveu a planilha Programa Especial Italiano, na qual Palocci era tratado como "Italiano" e Guido Mantega como "Pós-Itália".
O MPF informou que outra frente de apuração diz respeito a relato feito por Antonio Palocci, em que afirma que André Esteves, em perÃodo próximo ao final da campanha de 2010, teria acertado com Guido Mantega o repasse de R$ 15 milhões para garantir privilégios ao BTG Pactual no projeto das sondas do pré-sal da Petrobras.
"Segundo Palocci, parte desse valor teria sido entregue em espécie a Branislav Kontic na sede do Banco."
O nome de Graça Foster também aparece na nossa fase. "Apura-se, ainda, informações contidas em e-mails de Marcelo Odebrecht e prestadas por Palocci no sentido de que a ex-presidente da Petrobras Graça Foster teria conhecimento do esquema de corrupção existente à época na estatal, mas não teria adotado medidas efetivas para apurar tal esquema ou impedir a continuidade do seu funcionamento."
Foster é a terceira ex-presidente da Petrobrás alvo da Lava Jato. Ela ocupou o comando da estatal entre fevereiro de 2012 e fevereiro de 2015. José Sérgio Gabrielli e Aldemir Bendine também já havia caÃdo no radar das apurações.
Defesas
COM A PALAVRA, O BANCO BTG PACTUAL
"Com relação à operação da PolÃcia Federal realizada nesta data, o BTG Pactual esclarece que está à disposição das autoridades para que tudo seja esclarecido o mais rápido possÃvel, como sempre.
O BTG Pactual reforça que o Banco opera normalmente.
O Banco esclarece ainda, que o objeto da referida busca e apreensão foi alvo de uma investigação independente conduzida pelo escritório de advocacia internacional Quinn Emanuel Urquhart & Sullivan, LLP, especializado em investigações e auditorias, contratado em 2015 por um comitê independente formado justamente para fazer uma auditoria externa e imparcial sobre as alegações na época relacionadas a atos ilÃcitos. A referida auditoria concluiu não existir qualquer indÃcio de irregularidade. O relatório é público e pode, inclusive, ser acessado no site do banco (https://www.btgpactual.com/noticias/quinn-emanuel-conclusoes-da-investigacao)"
COM A PALAVRA, A DEFESA DE GRAÇA FOSTER
A reportagem tenta contato com a defesa da ex-presidente da Petrobras. O espaço está aberto para manifestação.
COM A PALAVRA, A DEFESA DE ANDRÉ ESTEVES
A reportagem tenta contato com a defesa do executivo do BTG. O espaço está aberto para manifestação.
Fonte: Estadão Conteúdo