24/05/2017 13h06
Lula quis saber 'que bicho comeu os marrecos' do sítio de Atibaia
Entre mais de 400 documentos anexados pela Procuradoria da República à nova denúncia contra o ex-presidente Lula, um e-mail apontou a preocupação do petista com os bichos que viviam no sÃtio de Atibaia, no interior de São Paulo. Lula é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro de R$ 1,02 milhão nas reformas da propriedade.
Na mensagem de 2 de outubro de 2014, à s 17h23, um funcionário do Instituto Lula escreve a uma colega da entidade e a Valmir Moraes da Silva, segurança do petista. O tÃtulo do e-mail: "Jaguatiricas em Atibaia?"
"Respondendo à pergunta do presidente: que bicho comeu os marrecos? Provavelmente, uma jaguatirica", explica o funcionário do Instituto Lula. Ele envia uma reportagem e um vÃdeo sobre a "ocorrência de jaguatiricas na Serra do Itapetininga" e informações sobre "recomendações para casos de predação de animais".
"Liguei nesse número do CENAP/ICMBio e fui muito bem atendido por uma funcionária chamada Lilian. Ela reforçou a hipótese da jaguatirica e ficou de enviar mais informações sobre como prevenir os ataques", conta o funcionário do Instituto Lula.
Ele faz 3 sugestões: "1) Recolher os animais no perÃodo da noite, se for viável; 2) Cachorro de guarda, que pode espantar a jaguatirica ou, no mÃnimo, alertar dos ataques latindo; 3) Ficar de tocaia, com ou sem o cachorro, e, ao notar ocorrência de ataque, soltar rojões para assustar o predador".
O funcionário afirma que o "Instituto, que fica em Atibaia, parece bem sério e atencioso". "Talvez seja uma boa pedir uma visita deles ao local para orientar melhor o caseiro."
Denúncia
A Procuradoria da República, no Paraná, acusa Lula de "estruturar, orientar e comandar esquema ilÃcito de pagamento de propina em benefÃcio de partidos polÃticos, polÃticos e funcionários públicos com a nomeação, enquanto presidente da República, de diretores da Petrobras orientados para a prática de crimes em benefÃcio das empreiteiras Odebrecht e OAS".
A denúncia do Ministério Público Federal atribui ao petista "propina para o seu benefÃcio próprio consistente em obras e benfeitorias relativas ao sÃtio de Atibaia custeadas ocultamente pelas empresas Schahin, Odebrecht e OAS".
Como nas outras duas denúncias da força-tarefa, no Paraná, a Procuradoria aponta Lula "como o responsável por comandar uma sofisticada estrutura ilÃcita para captação de apoio parlamentar, assentada na distribuição de cargos públicos na Administração Pública Federal".
A denúncia afirma que o esquema ocorreu nas mais importantes diretorias da Petrobras, mediante a nomeação de Paulo Roberto Costa, Renato Duque e Nestor Cerveró, respectivamente, para as diretorias de Abastecimento, de Serviços e Internacional da estatal.
Por meio do esquema, estes diretores geravam recursos que eram repassados para enriquecimento ilÃcito do ex-presidente, de agentes polÃticos e das próprias agremiações que participavam do loteamento dos cargos públicos, bem como para campanhas eleitorais movidas por dinheiro criminoso.
Também foram denunciados José Adelmário Pinheiro Filho, pela prática dos crimes de corrupção ativa e lavagem de dinheiro; Marcelo Bahia Odebrecht e Agenor Franklin Magalhães Medeiros, pelo crime de corrupção ativa; bem como José Carlos da Costa Marques Bumlai, Rogério Aurélio Pimentel, EmÃlio Alves Odebrecht, Alexandrino de Salles Ramos de Alencar, Carlos Armando Guedes Paschoal, Emyr Diniz Costa Júnior, Roberto Teixeira, Fernando Bittar e Paulo Roberto Valente Gordilho, acusados da prática do crime de lavagem de dinheiro.
Segundo a denúncia, os valores ligados à Odebrecht e à OAS foram repassados a partidos e polÃticos que davam sustentação ao governo de Lula, especialmente o PT, o PP e o PMDB, bem como aos agentes públicos da Petrobras envolvidos no esquema e aos responsáveis pela distribuição das vantagens ilÃcitas, em operações de lavagem de dinheiro que tinham como objetivo dissimular a origem criminosa do dinheiro.
A força-tarefa aponta que "parte do valor das propinas pagas pela Odebrecht e pela OAS, no valor aproximado de R$ 870 mil, foi lavada mediante a realização de reformas, construção de anexos e outras benfeitorias no SÃtio de Atibaia, para adequá-lo à s necessidades da famÃlia do denunciado Luiz Inácio Lula da Silva, assim como mediante a realização de melhorias na cozinha do referido SÃtio e aquisição de mobiliário para tanto".
Também foi objeto de lavagem de dinheiro uma parte dos valores de propina oriunda dos crimes de gestão fraudulenta, fraude à licitação e corrupção no contexto da contratação para operação da sonda Vitória 10000 da Schahin pela Petrobras, a qual foi utilizada, por intermédio de José Carlos Bumlai, para a realização de reformas estruturais e de acabamento no SÃtio de Atibaia, no valor total de R$ 150.500,00.
A denúncia foi elaborada com base em depoimentos, documentos apreendidos, dados bancários e fiscais bem como outras informações colhidas ao longo da investigação, todas disponÃveis nos anexos juntados aos autos.
Defesa
"A denúncia apresentada hoje (segunda, 22) pela Força Tarefa da Lava Jato contra Lula mostra uma desesperada tentativa de procuradores da República justificar à sociedade a perseguição imposta ao ex-Presidente nos últimos dois anos, com acusações frÃvolas e com objetivo de perseguição polÃtica. A nota que acompanhou o documento deixa essa situação muito clara ao fazer considerações que são estranhas à área jurÃdica e à s regras que deveriam orientar a atuação de membros do Ministério Público, como a legalidade e a impessoalidade", diz o advogado Cristiano Zanin Martins, por meio de nota.
"A peça buscou dar vida à tese polÃtica exposta no PowerPoint de Deltan Dallagnol, para, sem qualquer prova, atribuir a Lula a participação em atos ilÃcitos, envolvendo a Petrobras, que ele jamais cometeu. Os procuradores reconhecem não ter qualquer prova de que Lula seja o proprietário do sÃtio, embora tenham repetido esse absurdo por muito tempo em manifestações formais e em entrevistas impropriamente concedidas à imprensa: 'A forma de aquisição da propriedade e seu registro, mediante possÃveis atos de ocultação e dissimulação, não são objeto da denúncia'", diz o texto do advogado de Lula.
"Mas recorreram a pedalinhos e outros absurdos para sustentar a tese de que Lula seria o beneficiário de obras realizadas no local e que os valores utilizados seriam provenientes de supostos desvios ocorridos em contratos firmados pela Petrobras. A afirmação colide com todos os depoimentos já colhidos em juÃzo, até a presente data, com a obrigação de dizer a verdade, que afastam o ex-Presidente da prática de qualquer ato ilÃcito".
A Lava Jato age de forma desleal em relação a Lula, com acusações manifestamente improcedentes e com a prática de atos que são ocultados de sua defesa. Hoje (segunda-feira) mesmo, o ex-Senador DelcÃdio do Amaral reconheceu em depoimento prestado na 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba que participou no Mato Grosso de Sul de interrogatório solicitado por autoridades americanas com a participação do Ministério Público Federal e com representantes da Petrobras. O ato, embora relacionado à s acusações feitas contra Lula, não havia sido revelado e os documentos correspondentes ainda são desconhecidos".
"A falta de justa causa para o recebimento da ação penal proposta nesta data é flagrante e um juiz imparcial jamais poderia recebê-la", finaliza a nota.
Fonte: Estadão Conteúdo