05/08/2019 11h10
Mineração pode atingir 1/3 das áreas indígenas
A determinação do governo federal de permitir a exploração mineral em terras indÃgenas tem potencial para afetar quase um terço das reservas no PaÃs. Prevista na Constituição de 1988, a atividade em territórios demarcados nunca foi regulamentada e é alvo de discussão no Congresso há décadas. O assunto vem sendo tratado com insistência pelo presidente Jair Bolsonaro, declaradamente favorável à mineração nessas áreas.
Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), há 4.332 requerimentos para exploração do subsolo em 214 das 735 áreas indÃgenas registrados na Agência Nacional de Mineração - 29,1% do total, inclusive nos parques indÃgenas de Tumucumaque (AP e PA), Araguaia (TO) e Aripuanã (MT).
Os requerimentos envolvem a exploração de 66 substâncias, principalmente ouro. A maioria, 88%, é de pedidos para pesquisa, ou seja, sem comprovação cientÃfica de que existam minérios nessas áreas. Conforme especialistas, grande parte desses requerimentos é das décadas de 1980 e 1990, protocolada antes da demarcação das terras indÃgenas, e tem como objetivo garantir aos autores dos pedidos prioridade caso a exploração seja autorizada, prática comum no setor.
O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que representa as empresas do setor, disse que a exploração em terras indÃgenas está fora da pauta da entidade há décadas. Para o instituto, antes de falar em legalização, o governo deveria fazer um levantamento cientÃfico sobre as potencialidades dos territórios, com a participação de comunidades originárias.
"O governo poderia, num primeiro momento, elaborar um mapeamento geológico, para se estabelecer possÃveis ocorrências de minérios. Esta seria uma fase importante para se fomentar um diálogo mais consistente, inclusive, com o envolvimento dos povos indÃgenas, de acordo com princÃpios de sustentabilidade e segurança para os ocupantes das terras", afirmou a entidade.
Bolsonaro falou em legalizar o "garimpo" nessas áreas ao comentar a morte do cacique Emyra Waiãpi, supostamente vÃtima de garimpeiros no Amapá. Na sexta-feira, após pesquisa Datafolha apontar que 86% da população é contra a medida, ele disse que vai submeter o assunto a uma consulta popular.
Ainda na semana passada, o presidente afirmou que pretende criar "pequenas Serras Peladas", que poderiam ser exploradas tanto por Ãndios quanto por estrangeiros. Um grupo de estudo sobre o tema foi criado no Ministério de Minas e Energia.
Lei
Prevista na Constituição, a exploração em áreas indÃgenas por garimpeiros ou mineradoras nunca foi regulamentada. Pela lei, essas terras são da União e se destinam à posse permanente dos Ãndios que as ocupam. Porém, há regimes distintos de propriedade. Jazidas do subsolo são passÃveis de concessão, desde que a atividade tenha sido aprovada pelo Congresso e pelos indÃgenas, que devem ter direito a uma parte do lucro.
Isso não impede que garimpeiros invadam reservas para extração ilegal, à s vezes com anuência dos Ãndios. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o total de invasões subiu de 11 em 2016 para 17 em 2017.
Em 1996, o Senado aprovou projeto do então senador Romero Jucá (MDB-RR), cuja famÃlia tem interesse na exploração em terras ianomâmis. O projeto se arrasta na Câmara. Em 2004, foi criado grupo de trabalho após massacre na terra indÃgena Roosevelt (RO), sem resultado prático. Em 2018, uma comissão especial foi formada. Um substitutivo relatado pelo deputado Édio Lopes (PL-RR) obteve o acordo de vários setores, mas não foi votado.
Para estudiosos, a falta de controle pelo Estado torna a legalização inviável. "Deve-se questionar a ideia simplória segundo a qual os Ãndios se beneficiariam por royalties. Quem controlaria a quantidade de minério extraÃdo para assegurar o pagamento correto dos royalties?", disse a antropóloga Dominique Gallois, da USP. Ãndios que concordarem com a mineração, afirmou, devem ser assistidos por Ministério Público e Funai.
Na avaliação de Dominique, ao falar sobre mineração em terra indÃgena antes de sanar falhas na exploração de áreas inexploradas não indÃgenas, Bolsonaro mostra que sua intenção "é ideológica, não técnica".
Lopes disse acreditar que, se o governo não "ideologizar" a questão, ela pode avançar, e que trabalha pela regulamentação racional da atividade. "Não podemos simplesmente autorizar a mineração nessas áreas. Senão, vai ser um genocÃdio."
Procuradas, a Funai e a Secretaria de Comunicação do Planalto não se manifestaram.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo