13/03/2022 07h50
MP-RJ volta a testemunhas e celulares do caso Marielle
Às vésperas do quarto aniversário do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, na noite de 14 de março de 2018, o Ministério Público do Rio (MP-RJ) ouve novos depoimentos e reexamina, com tecnologia mais moderna, os celulares aprendidos nas apurações. O objetivo é chegar ao mandante ou mandantes do duplo homicÃdio, ainda investigado como crime polÃtico.
Nas oitivas, são interrogadas pessoas da famÃlia e outras que trabalhavam com a vereadora. O policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio de Queiroz estão presos há três anos, acusados de serem os executores do crime. O julgamento não foi marcado.
O coordenador do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MP-RJ), Bruno Gangoni, disse que os celulares são analisados com tecnologia de recuperação de mensagens. Segundo Gangoni, a hipótese de crime polÃtico só será confirmada quando o mandante for preso. Até agora, não há indicio da participação de milÃcias no duplo homicÃdio.
"Temos revisitado todo o material produzido ao longo da investigação", afirmou Gangoni. "As provas dessa investigação são muito digitais; os softwares hoje têm capacidade tecnológica muito maior do que na época em que os aparelhos foram apreendidos. Todos estão sendo reavaliados na tentativa de conseguirmos encontrar novas mensagens."
O Ministério Público avalia também novas informações enviadas pelo Google e aguarda dados do Facebook. O MP quer saber quem acessou a página de Marielle para consultar sua agenda. Postada na semana do crime, ela trazia detalhes sobre a palestra na Casa das Pretas. Após sair do evento, o carro em que iam Marielle e Anderson foi emboscado.
Em evento na manhã deste sábado, o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), disse que tem cobrado as autoridades policiais sobre o caso. "A PolÃcia continua investigando. Não me meto em investigação, eu cobro resultado", afirmou, ao "RJTV", da TV Globo.
SOB ESCOLTA
A dificuldade para identificar os mandantes torna cada vez maior o risco para a atuação de mulheres na polÃtica, sobretudo as negras, afirmou a deputada estadual Renata Souza (PSOL). Para ela, a morte da vereadora foi um "feminicÃdio polÃtico". Renata circula com seguranças. O mesmo ocorre com outras parlamentares negras que receberam ameaças de morte.
"O conceito de feminicÃdio polÃtico surge após o assassinato de Marielle Franco como um conceito quase que existencial", disse. "Estou falando de mulheres que estão na linha de frente da polÃtica, que sofrem um processo de violência polÃtica constante, que pode chegar a um feminicÃdio polÃtico. Isso é muito sério."
Primeira vereadora trans da Câmara Municipal de São Paulo, Érika Hilton (PSOL) afirmou na CPI da Violência Contra Pessoas Trans e Travestis, na quinta-feira, que foi ameaçada de morte várias vezes. Como Renata, vive sob escolta. Outra vereadora trans, Benny Briolly (PSOL), de Niterói, na Região Metropolitana do Rio, sofreu três ameaças de morte.
A deputada federal TalÃria Petrone (PSOL), que era amiga de Marielle, precisou sair do Rio por causa de ameaças. Para ela, a demora na resolução do crime expõe a "fragilidade da democracia brasileira". "Enquanto não temos resposta a essa execução polÃtica, os casos de violência contra nós só aumentam", disse.
"Além de termos que lidar com as dificuldades inerentes a uma sociedade fundamentada no racismo estrutural, também corremos o risco de não podermos exercer o mandato para o qual fomos eleitas", afirmou. "Não podemos perder mais nenhuma de nós e não queremos entrar para a história como mártires." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo