23/01/2019 16h20
MPF afirma que não permitirá revisão de terras indígenas demarcadas
O procurador do Ministério Público Federal (MPF), Antonio Carlos Bigonha, coordenador da 6.ª Câmara do órgão, disse nesta quarta-feira, 23, que as terras indÃgenas que já foram homologadas não serão alvos de revisão pelo governo, pois já cumpriram todas as etapas de reconhecimento prevista em lei.
"A revisão do ato administrativo é uma doutrina antiga no Direito brasileiro. Todo ato administrativo pode ser revisado, se tiver uma nulidade, ou se houver um interesse público relevante. Mas isso não pode significar que exista uma dúvida sobre os processos demarcatórios que foram feitos até agora", afirmou Bigonha durante evento sobre direitos constitucionais indÃgenas, que acontece na sede do MPF, em BrasÃlia. "Não paira nenhuma dúvida sobre a legalidade e regularidade desse processo."
O presidente Jair Bolsonaro já declarou que pretende rever processos de demarcações de terras já homologadas aos Ãndios, a começar pela terra indÃgena Raposa Serra do Sol, em Roraima. O plano de rever processos foi confirmado pelo secretário da Secretaria Especial de Assuntos Fundiários, Nabhan Garcia, que deu inÃcio a uma revisão nos processos executados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Fundação Nacional do Ãndio (Funai) e Fundação Palmares.
Segundo Bigonha, não há o que se questionar em relação à s demarcações já realizadas. "É o impossÃvel jurÃdico rever demarcação de terras no Brasil. A não ser que se constatasse uma nulidade, um fato excepcionalÃssimo. O que existe no Brasil hoje são terras demarcadas regularmente."
Nesta semana, o MPF pediu medidas urgentes ao Ministério da Justiça para investigar as notÃcias de invasões em ao menos três terras indÃgenas pelo PaÃs.
O evento na sede do MPF foi aberto pela procuradora-geral da República, Raquel Dogde, e contou com a presença da ministra da Mulher, FamÃlia e Direitos Humanos, Damares Alves. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, foi convidada, mas não compareceu ao encontro.
Raquel Dodge lembrou que a Constituição rompeu a tutela do governo sobre questões indÃgenas, assegurando aos Ãndios o direito de falarem por si. Ela cobrou discernimento e clareza nas ações planejadas pelo governo. Damares Alves disse que tinha comparecido ao evento "apenas para ouvir", que o governo Bolsonaro "veio buscar o diálogo". "Reafirmo meu compromisso e amor aos povos indÃgenas", disse.
Deputada indÃgena questiona 'amor ao Ãndio'
Também participante do evento no MPF, Joenia Wapichana (Rede-RR), a primeira mulher indÃgena eleita deputada federal no PaÃs, questionou a "declaração de amor" que Damares fez. "Que tipo de amor ao Ãndio é esse? Um amor que ameaça, que coloca vidas em risco com a retirada de competências, da fiscalização? Os Ãndios já são vulneráveis, e hoje estão mais expostos ainda. Que amor é esse?", questionou Joenia, durante o intervalo do encontro.
A deputada Joenia Wapichana criticou a edição da medida provisória 870, pela qual Bolsonaro retirou da Funai a atribuição de delimitar e homologar terras indÃgenas, além de suprimir a responsabilidade por licenciamentos ambientais que afetem essas áreas e comunidades. Essas funções passaram agora para o Ministério da Agricultura.
"A postura do governo é contraditória. Falar uma coisa, mas na prática você editar uma medida provisória que desestrutura todo avanço das consolidações dos direitos constitucionais", comentou. "Como é que vai se dar a proteção à s terras e povos indÃgenas? Não é simplesmente você retirar competências, colocar em outro órgão (Ministério da Agricultura), que tem outro interesse de fazer a predominância de seus entendimentos. Por outro lado, não dá nenhuma oportunidade de defesa."
Segundo Joenia, o Ãndio tem sido tratado como uma ameaça ao PaÃs, quando está completamente sozinho na defesa de suas comunidades e terras. "Dizer que nós somos empecilho ao desenvolvimento econômico? Isso é uma ameaça. O que estamos vendo não é mais sinal, é a concretização do que ouvimos nas campanhas eleitorais, de uma disputa sobre os direitos indÃgenas e socioambientais. A edição dessa medida provisória é a reversão de todas as conquistas que nós já tivemos. É uma inversão dos preceitos constitucionais. Estão mexendo em cláusulas pétreas de nossos direitos, o que causa uma enorme insegurança jurÃdica. Nossos direitos fundamentais estão ameaçados."
Funai diz que manterá estrutura de saúde indÃgena
O presidente da Funai, Franklimberg de Freitas, disse que o Ministério da Justiça se comprometeu em manter em funcionamento a estrutura da Secretaria Especial de Saúde IndÃgena (Sesai), braço de saúde pública voltado, especificamente, à s necessidades, hábitos e costumes dos povos tradicionais.
O novo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse no inÃcio do ano que atual polÃtica de saúde indÃgena opera com sistema "improvisado" e que buscaria outro modelo de atendimento aos indÃgenas. Chegou-se a se especular se a intenção seria acabar com a Sesai, fazendo com que os Ãndios passassem a ser atendidos diretamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Mandetta criticou ainda repasses envolvendo organizações não governamentais na área de saúde.
"Eu acredito que não vai ocorrer isso (fim da Sesai). A convite da ministra Damares Alves, eu já participei de uma reunião no Ministério da Saúde. O ministro (Mandetta) foi muito enfático e, muito pelo contrário, ele quer melhorar, aperfeiçoar o atendimento da saúde indÃgena. Pelo o que observei, a Sesai prossegue", comentou Franklimberg de Freitas.
A Sesai recebe cerca de R$ 1,5 bilhão por ano do Ministério da Saúde para desempenhar suas funções. A população indÃgena brasileira é de cerca de 818 mil pessoas, os quais estão distribuÃdos em 688 terras indÃgenas. São 305 povos diferentes, que falam 274 lÃnguas distintas.
A Sesai tem a função de coordenar e executar a PolÃtica Nacional de Atenção à Saúde dos Povos IndÃgenas. A secretaria atua com um novo modelo de gestão e de atenção no âmbito do Subsistema de Atenção à Saúde IndÃgena, articulado com o SUS (SasiSUS), mas de forma descentralizada, com autonomia administrativa, orçamentária e financeira. Sua responsabilidade sanitária envolve 34 distritos sanitários especiais indÃgenas (Dseis).
As discussões sobre a temática indÃgena prosseguem até o fim do dia.
Fonte: Estadão Conteúdo