15/02/2021 18h18
'Na crise, eleitor escolhe candidatos mais conhecidos', diz especialista
A pandemia de covid-19, como se esperava, tirou a campanha das ruas, ao menos nos moldes como se conhecia antes, com comÃcios, passeatas e cabos eleitorais espalhados pelas esquinas. Como consequência, acentuou-se uma tendência já em alta no Brasil: a concentração do debate polÃtico no ambiente virtual, especialmente nas redes sociais. O fenômeno ajuda candidatos com uma base de seguidores mais sólida, segundo o Pedro Kelson, mestre em democracia e capital social e coordenador de articulação da sociedade civil no Pacto pela Democracia. Ele também avalia que a onda da renovação, diante da calamidade pública do coronavÃrus se arrefeceu, assim como nomes ligados aos extremos da polÃtica, dando força novamente para um centro mais moderado. Confira:
Pesquisas mostram que candidatos mais identificados com o centro estão liderando na maior parte das capitais. Isso pode ser uma tendência para 2022?
De fato, estamos assistindo a um fenômeno eleitoral marcado pelo continuÃsmo de mandatos, pelo fortalecimento de candidaturas de centro e pelo enfraquecimento daquelas ligadas à extrema-direita e ao petismo. Há, contudo, candidaturas à esquerda do PT com chances de 2º turnos competitivos, como é o caso de Guilherme Boulos (PSOL/SP) e Manuela DÃvila (PCdoB/RS), o que aponta para o enfraquecimento dos grandes polos antagônicos nacionais e, não necessariamente, de extremos ideológicos. Embora o presidente Jair Bolsonaro esteja no jogo polÃtico há décadas, ele foi fortemente beneficiado em 2018 por uma postura social antissistema, que parece se arrefecer nessa nova configuração.
E o antipetismo?
Neste cenário, o antipetismo se mantém como uma força polÃtica ainda vigorosa. Ter base polÃtica nos municÃpios é um ativo para qualquer candidatura que queira chegar competitiva ao pleito nacional. Portanto, o desempenho eleitoral deste ano terá impacto certo nas eleições de 2022. A formação desse centro, todavia, ainda é bastante incerta e há uma disputa por qual grupo polÃtico conseguirá ocupar esse lugar no imaginário social.
Candidatos apresentados como 'novos' na polÃtica não decolaram dessa vez. A onda da renovação polÃtica acabou?
Em momentos de crises e incertezas é muito comum que as pessoas escolham pelo que é conhecido e seguro. Me parece que candidaturas mais tradicionais tenham sim o benefÃcio da previsibilidade, respondendo bem à paisagem emocional destes tempos pandêmicos. A isso, soma-se o fato de que o rótulo "nova polÃtica" não resistiu ao exercÃcio da prática e ficou extremamente desgastado e esvaziado de significado. A diversidade, contudo, segue sendo um valor importante na atualidade. As eleições americanas mostraram a força e o poder dos movimentos negros e de mulheres, grandes responsáveis pela eleição da chapa democrata Biden/Harris à Casa Branca. A ideia de que é preciso ampliar a representação polÃtica, inserindo grupos sub representados nos espaços de poder como mulheres, pessoas negras, jovens, indÃgenas e população LGBTQI+, segue bastante viva. É preciso ver se há força o suficiente para sobrepujar as barreiras estruturais, culturais e institucionais postas.
A pandemia favoreceu candidatos mais conhecidos?
Ainda que as candidaturas não tenham deixado totalmente de fazer campanha nas ruas, o isolamento social de fato forçou-as a apostar mais nas redes virtuais, terreno que oferece vantagens a figuras públicas já conhecidas. Construir uma base de seguidores do zero hoje, com relevância e engajamento, é muito mais difÃcil do que anos atrás. As mudanças no modelo de monetização das empresas, que passaram a priorizar sobremaneira conteúdos patrocinados, beneficia candidaturas mais ricas, em geral também mais conhecidas. Os algoritmos das plataformas também têm dado menor alcance para postagens com teor polÃtico eleitoral, em resposta à intensa pressão internacional sobre a responsabilidade dessas empresas em propagar desinformação e influir em eleições em todo o mundo. Tudo isso dificulta a vida dos novos postulantes que precisam construir público.
E o horário de TV? Voltou a ser relevante?
Se partirmos dos números de audiência é possÃvel dizer que não. Segundo pesquisa Ibope recente, há uma queda de 16% nos nÃveis de audiência entre as propagandas eleitorais de 2016 e de 2020, mesmo com mais pessoas em isolamento social. Esses números reforçam a percepção de que o tempo de propaganda eleitoral televisiva, a despeito do altÃssimo custo de produção, já não é um fator determinante.
A pandemia expôs de forma mais contundente as desigualdades sociais, especialmente em cidades ricas, como São Paulo. Candidatos propuseram auxÃlios financeiros, frentes de trabalho e até crédito para alavancar emprego e renda. Passada a eleição, essas são as promessas que deverão ser priorizadas?
Dois fatores seguem no horizonte do próximo biênio. A possibilidade de uma segunda onda antes do lançamento das vacinas e o fato de que o presidente não demonstra nenhuma intenção em mudar sua postura anticientÃfica caso a pandemia se estenda e volte a crescer. Diante desse cenário, o papel das prefeituras torna-se central. Serão elas que precisarão criar planos articulados e coordenados de proteção da vida e dos empregos no PaÃs.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo