04/01/2019 15h01
Novo comandante da Aeronáutica prevê dificuldades ao governo Bolsonaro
O novo comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Antonio Carlos Moretti Bermudez, afirmou hoje que o presidente Jair Bolsonaro encontrará dificuldades no inÃcio da gestão, como "reações corporativas" e "inconformismo". Nomeado hoje por Bolsonaro, Bermudez classificou como "verdadeiramente diferente" o governo do ex-deputado e capitão da reserva do Exército, há quatro dias no cargo.
"O documento que define a conduta do governo federal nessa sua fase inicial deixa claro que dificuldades irão surgir, seja pelo receio à s mudanças, seja pela escassez de recursos, ou mesmo provenientes da reação corporativa ou do inconformismo com um governo verdadeiramente diferente. Entretanto, o próprio documento evidencia que nada disso será suficiente para impedir o avanço do nosso PaÃs", afirmou o brigadeiro Bermudez, ao assumir o comando na Base Aérea de BrasÃlia.
Bermudez afirmou que a missão da Aeronáutica é "defender a pátria, garantir os poderes constituÃdos e, por demanda desses, assegurar a garantia da lei e da ordem". Ele prometeu que a força vai "interagir com os segmentos verdadeiramente comprometidos com o desenvolvimento do PaÃs, sendo um dos vetores de pronta resposta aos clamores da sociedade".
Novos rumos
Em seu discurso, o brigadeiro associou o governo Bolsonaro a uma expectativa por "novos tempos, valores distintos e mentalidade diferente, uma outra visão de mundo".
Diante do governo com maior participação de militares desde a redemocratização, Bermudez falou em zelo com "a higidez e a intelectualidade" do efetivo e pediu aos comandados atenção aos deveres constitucionais. Diversos oficiais das Forças Armadas têm manifestado preocupação com o risco de politização das tropas e com a identificação da gestão Bolsonaro como um governo militar.
"Rogo para que todos persigam os itens colimados sem timidez e sem descuido, mantendo suas mentes voltadas para a missão constitucional da defesa do solo que seus pés pisam", disse o comandante à tropa.
Bermudez afirmou aos demais comandantes, da Marinha (Ilques Barbosa Junior) e do Exército (Edson Pujol), que enfrentarão dilemas teóricos e práticos, mas que "o colegiado da maior da Aeronáutica saberá alcançar o consenso entre a certeza e a verdade".
O novo comandante também disse que são "notórias" as prioridades do governo Bolsonaro com o desenvolvimento social, que vai "estender para todo o PaÃs os bens do progresso". Ele citou a atuação da Aeronáutica no apoio a necessidades básicas da população e situações de calamidade.
Objetivos
Ele prometeu focar seu comando na incorporação de novas tecnologias, na capacitação de pessoal e na defesa da Amazônia e do Atlântico Sul. Segundo Bermudez, as regiões "ostentam potencialidades e atraem cobiças que conflitam com interesses maiores do povo brasileiro".
"Minha prioridade será a de aumentar a qualidade de nossos cursos a fim de garantir a formação de profissionais que saibam aliar inteligência multifacetada, comunicação construtiva, trabalhar em equipe, e, principalmente, realizar várias tarefas simultanemente", disse o novo comandante.
Ele disse que pretende garantir o aporte de recursos públicos em projetos estratégicos, citando, por exemplo, os novos caças F-39 Grippen, que serão a "espinha dorsal da defesa aérea" desenvolvidos em parceria com a Embraer e a Saab; e o A-29 Super-Tucano e o cargueiro KC-390, com a Embraer. Também destacou a necessidade modernização tecnológica do sistema de controle do espaço aéreo e de envolvimento da Aeronáutica em projetos espaciais.
Bermudez fez uma aceno à tropa, defendendo melhor suporte de saúde, moradia condizente, instalações de trabalho adequadas e reconhecimento da dedicação a uma carreira com "caracterÃsticas únicas".
O oficial general destacou o bom relacionamento da Força Aérea Brasileira (FAB) com a imprensa, para construir a reputação do órgão, disse que pretende incentivar a "perfeita relação com a mÃdia", enquanto o presidente tem mantido uma postura crÃtica a jornalistas.
O antecessor dele, tenente-brigadeiro do ar Nivaldo Luiz Rossato, também teve uma postura diferente de Bolsonaro. Na quarta-feira, Bolsonaro deixou de nominar parte de seus antecessores durante discurso de posse do ministro da Defesa no Clube do Exército. Já o ex-comandante Rossato agradeceu hoje aos ex-presidentes Dilma Rousseff e Michel Temer, aos quais se subordinou enquanto esteve no cargo mais alto da força. Ele também citou nominalmente os ex-ministros da Defesa de Dilma (Aldo Rebelo e Jaques Wagner) e de Temer (Raul Jungmann e Joaquim Silva e Luna).
Rossato defendeu que as forças tenham "capacidade dissuasória que desestimule aventuras" diante das imensas áreas cultivadas, florestas, águas, minerais e terras com baixa densidade populacional.
"Não podemos nos enganar. As ameaças existem, estão mimetizadas a nossa volta e até entre nós, e prontas a demonstrar sua força, aproveitando nossas vulnerabilidades. Por isso, devemos estar sempre prontos, integrados com a Marinha e o Exército. A paz com nossos vizinhos não permite à nação o direito de menosprezar suas Forças Armadas", discursou Rossato em seu último ato à frente da tropa. "Confiem e apoiem a Força Aérea, confiem e apoiem as instituições militares."
Fonte: Estadão Conteúdo