12/09/2020 12h10
'Olheiro' de projeto que coage mídia atua no país
Com adesivo de apoio à reeleição de Donald Trump e Jair Bolsonaro no peito, o militante norte-americano de direita Ryan Hartwig fez um road show no Brasil. Participou de ato polÃtico no 7 de Setembro e deu até entrevistas em portunhol a blogueiros e youtubers de direita, como o canal governista Terça Livre. Apresentado como "delator" de uma suposta "censura polÃtica" à direita em organizações de mÃdia, Hartwig desembarcou no PaÃs na semana passada para uma série de encontros com grupos conservadores, em São Paulo e BrasÃlia.
O ativista ganhou notoriedade no cÃrculo conservador por meio do projeto Veritas, iniciativa da extrema direita americana que busca desacreditar jornalistas, empresas de comunicação e gigantes da área de tecnologia. A organização tem como método principal, segundo Jane Kirtley, professora de ética e lei de mÃdia da Universidade de Minnesota, criar situações para filmar e depois editar de forma seletiva conversas informais de jornalistas e executivos sobre polÃtica e suas firmas.
No seu site oficial, o Veritas já divulgou conversas privadas de funcionários e documentos internos do Facebook, Google e Pinterest, além das TVs CNN e ABC News, na tentativa de demonstrar um suposto viés ideológico no trabalho dessas empresas. As conversas foram gravadas sem autorização e expostas no site do Veritas, por meio de entrevistas com ex-funcionários dessas companhias, tratados como "infiltrados".
Em 2017, o jornal Washington Post revelou que uma pessoa tentou repassar à publicação uma notÃcia falsa envolvendo um candidato a senador nos Estados Unidos. O Post investigou a suposta "fonte" e descobriu que ela frequentava o escritório do projeto Veritas. Na época, o Veritas nada comentou.
Em carta ao Estadão, enviada após a publicação da reportagem no portal estadão.com.br, o projeto Veritas informou que não edita seus vÃdeos seletivamente nem favorece nenhuma ideologia em particular. Procurado por e-mail antes da publicação, Hartwig não se manifestou.
Tour
A agenda das visitas de Hartwig ao Brasil não foi pública, mas ele e seus admiradores divulgaram parte dela. Em BrasÃlia, o militante almoçou e se reuniu na terça-feira passada com a deputada Bia Kicis (PSL-DF), alvo do inquérito das fake news no Supremo Tribunal Federal (STF). Depois, participou da transmissão ao vivo do Terça Livre. O canal é liderado pelo blogueiro Allan dos Santos, também investigado no processo que apura a existência de uma rede para divulgar mensagens de ódio e notÃcias falsas.
"Estamos conversando sobre as mentiras, as fake news produzidas pela esquerda, e que têm completo amparo de redes como o Facebook. E aquelas verdades que a gente fala são tratadas como fake news", afirmou Bia Kicis em um vÃdeo postado no Instagram, após almoçar com Hartwig. "Ele tem as gravações de pessoas, funcionários, empregados do Facebook confessando que perseguem mesmo conservadores, que a ordem é retirar posts de conservadores e deixar os progressistas."
Numa rede social, um perfil anônimo celebrou a visita do militante ao Brasil em tom de brincadeira. "Agora a CIA (agência de inteligência dos EUA) chegou, porra! Ninguém nos detém", diz o post. Hartwig respondeu: "Não, não sou da CIA. Só um norte-americano preocupado tentando ajudar o Brasil a manter a liberdade de expressão".
No Twitter, Hartwig classificou a mÃdia no Brasil como "tão desonesta quanto a dos Estados Unidos". E provocou: "Voltarei ao Brasil para depor no Congresso Nacional sobre censura", numa menção a CPI das Fake News, que investiga uma rede formada por apoiadores do presidente Bolsonaro que tem como objetivo difamar os opositores do governo.
De Phoenix, no Arizona, Hartwig se define como conservador e simpatizante do Partido Republicano. Ao todo, o norte-americano disse ter feito 17 reuniões em sete dias - sendo 13 entrevistas a blogueiros e sites aliados do governo Jair Bolsonaro. "Não vim ao Brasil de férias, de forma alguma", disse.
Hartwig afirma ter trabalhado por dois anos, de 2018 a 2020, para o Facebook. Era moderador de conteúdo contratado como terceirizado. Depois, divulgou gravações que alega ter feito, com câmera oculta. Para o ativista, o Facebook é leniente com ataques a Trump e Bolsonaro. "A orientação do Facebook é promover pontos de vista esquerdistas e apagar direitistas", afirmou ele ao Terça Livre. A empresa nega as acusações. "Nossas polÃticas de conteúdo se aplicam igualmente a todos, e não censuramos ou promovemos quaisquer correntes polÃticas", informou o Facebook ao Estadão.
No Brasil, ele ainda incentivou campanha virtual contra o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, um adversário de Bolsonaro, questionou o perfil Sleeping Giants, que tenta expor financiadores de sites com conteúdo falso, e compartilhou o vÃdeo usado pelo vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro Ricardo Salles para contestar incêndios na Amazônia, mas com imagens de animais da Mata Atlântica. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo