15/11/2017 09h10
Os senhores do engenho e dos bastidores políticos
Quando era o todo-poderoso do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, costumava ir ao Rio conversar reservadamente com o presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani (PMDB). Era uma demonstração da força do polÃtico local: já naquela época, nada acontecia entre os peemedebistas fluminenses sem que Picciani soubesse, permitisse ou ordenasse. É assim até hoje - mas agora o patriarca atingido pela Operação Cadeia Velha enfrenta a maior crise de sua carreira, que ronda o clã que comanda na polÃtica fluminense.
Picciani teve infância modesta no subúrbio de Mariópolis, na zona norte, e estudou em escolas públicas. Começou na polÃtica em 1985, quando se filiou ao PSB e fez campanha para Marcelo Cerqueira para a prefeitura do Rio. Cerqueira perdeu, mas Picciani gostou da polÃtica. Foi eleito seis vezes deputado estadual, a partir de 1990, e se tornou um dos chefes da elite polÃtica do Rio. Passou pelo PDT e foi para o PMDB. Tem total controle da Alerj, o que lhe dá poderes de uma espécie de primeiro-ministro no Estado.
A carreira polÃtica de Picciani foi construÃda em parceria com Sérgio Cabral (PMDB). Foi primeiro secretário da Alerj, quando o hoje ex-governador era presidente da Casa. Os dois fizeram polÃtica juntos por mais de 20 anos, em uma relação de aliança, não de subordinação. Divergiram à s vezes, como na eleição de 2014, quando o governo estadual apoiava Dilma Rousseff, mas Picciani defendeu Aécio Neves (PSDB) - e depois apoiou Dilma.
Após Cabral virar senador, em 2002, Picciani assumiu diretamente a presidência da Alerj. Só ficou longe do posto quando perdeu a eleição para o Senado, em 2010, e ficou sem mandato. De volta em 2014, retomou o comando da Casa.
FamÃlia. Quando Cabral surgiu no Palácio Guanabara, em 2007, e Eduardo Paes assumiu a prefeitura da capital, em 2009, Picciani e seu clã, produtores de gado nelore e com um patrimônio que em 2014 alcançou mais de R$ 27 milhões - crescimento de 900% nos últimos 20 anos -, chegaram com mais força ao Executivo local. Desde as eleições daquele ano, os Picciani - o pai e os filhos Leonardo, de 38 anos, ministro do Esporte, e Rafael, de 31, agora ex-secretário municipal de Transportes na capital fluminense - viveram a expectativa de virar governo por meio de três partidos. Apoiaram o candidato da oposição, Aécio Neves (PSDB); aderiram ao governo da então presidente Dilma Rousseff (PT); e alcançaram o primeiro escalão do governo Michel Temer (PMDB).
Recentemente, Jorge Picciani passou sete meses em sessões de quimioterapia por causa de um câncer na bexiga. Havia retomado a atividade parlamentar há um mês. Neste ano, ele já havia sido levado a depor pela Operação O Quinto do Ouro, que interditou o Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Em uma das reformas ministeriais promovidas por Dilma, Picciani emplacou as indicações da bancada peemedebista na Câmara, que ele mesmo levou à petista: o aliado no Rio Celso Pansera (Ciência) e o piauiense Marcelo Castro (Saúde). Leonardo e o pai fizeram do PMDB fluminense uma trincheira ao movimento de desembarque do governo que culminaria no impeachment. Agiam impulsionados pelo governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, e o então prefeito carioca Eduardo Paes, que se organizava para sediar os Jogos OlÃmpicos - por isso recebia uma enxurrada de verbas federais.
CrÃtico da gestão de Pezão, Jorge Picciani trabalha pela candidatura de Paes ao governo do Estado. Ele tem dito que o melhor nome para suceder Temer é o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB). As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo