08/12/2019 16h10
Planalto recorre a Doria para viabilizar 'BR do Mar'
O governo Jair Bolsonaro apelou ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), para tirar do papel um de seus mais ambiciosos programas de logÃstica, o BR do Mar, que pretende dobrar a taxa de crescimento do transporte marÃtimo de mercadorias entre cidades brasileiras, a chamada cabotagem. Doria, porém, que tem uma série de pautas da infraestrutura que também esperam aval do governo federal, ainda não decidiu se vai acatar ou não o pedido.
O apoio viria da concordância de São Paulo em reduzir a zero a alÃquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do combustÃvel para navios de cabotagem - o bunker -, que hoje é de 12%. Essa redução é tida como vital pelos técnicos do Ministério da Infraestrutura para o programa deslanchar, uma vez que a estimativa é que cerca de 60% dos custos do frete marÃtimo dentro do PaÃs sejam de combustÃvel. Doria adotou, neste ano, medida similar com as alÃquotas para querosene de avião, em um programa próprio para estimular a aviação civil no interior do Estado.
Conversas semelhantes já ocorreram entre o ministério e os governos de Pará, Bahia e Rio. Mas a concordância de São Paulo, Estado com o maior parque industrial do PaÃs, é tida como determinante para o sucesso do BR do Mar, que vem sendo discutido desde julho. Havia expectativa de que o governo editasse uma Medida Provisória sobre o tema no começo deste mês. Porém, sem o acordo com Doria e após entendimentos com a Câmara, o programa será enviado ao Congresso em um projeto de lei comum, que deve tramitar em regime de urgência.
O pedido sobre a isenção do ICMS pegou de surpresa os paulistas em uma reunião que Doria teve com o ministro da Infraestrutura, TarcÃsio Freitas, em outubro. Também estavam presentes os secretários estaduais da Fazenda, Henrique Meirelles; de LogÃstica e Transportes, João Octaviano; e o secretário nacional de Portos, Diogo Piloni.
Representantes do governo federal tocaram no assunto no fim da conversa, que tinha como tema principal pautas paulistas: a transferência do terreno do Campo de Marte para a Prefeitura de São Paulo e a autorização de uma ponte para ligar Santos ao Guarujá, no litoral - a obra abrangeria uma área do Porto de Santos, que é federal.
Doria recebeu o pedido, mas as discussões ficaram paradas na esfera polÃtica, sem descer ao nÃvel técnico. Essa também é a situação da demanda envolvendo o Campo de Marte: a solicitação do tucano segue à espera de uma decisão do gabinete do presidente. Bolsonaro e Doria se afastaram após o governador passar a negar um alinhamento com o governo federal. Nas eleições de 2018, o paulista foi eleito em campanha associada ao então candidato do PSL e chegou a pedir votos usando o slogan "Bolsodoria".
Programa
Piloni afirma que o transporte pela costa de contêineres já cresce ao redor de 13% ao ano. "Há espaço para crescer de duas a três vezes mais do que isso", disse. Desde a greve dos caminhoneiros, no ano passado, a procura pela cabotagem aumentou ainda mais, segundo o setor de cargas. Mais da metade do volume transportado atualmente, porém, não é feito por navios de contêineres, e sim por navios-tanque com combustÃvel ou derivados, sob o comando da Petrobrás. Ao todo, a cabotagem cresce cerca de 4,1% ao ano.
O BR do Mar tem mais de uma frente de ação. O Ministério da Infraestrutura precisa aumentar a frota de embarcações usadas nessa área e conseguiu que a Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovasse, no mês passado, a redução de 14% para zero da alÃquota de importação de navios para este fim. Outro ponto é desburocratizar a fiscalização dos navios - que hoje é praticamente a mesma aplicada à s embarcações de longo curso (que vêm de fora do PaÃs) e flexibilizar o afretamento de estrangeiras (a contratação de navios de fora para transportes especÃficos).
Há ainda ações para melhoria da infraestrutura portuária do PaÃs, que estão inseridas no programa de privatizações de Bolsonaro. O conselho do Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) editou, em agosto, uma resolução especÃfica para determinar diretrizes de estÃmulo à cabotagem.
Por fim, há a redução de custos. E é aà que surge a discussão sobre o ICMS. "Disparadamente, o combustÃvel é o maior custo da operação", afirmou Piloni. "Esse é um projeto que só funciona se houver a parceria entre os entes, o governo federal e os governos estaduais. Nosso papel é mostrar a importância disso considerando uma lógica nacional", disse.
O diretor executivo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Bruno Batista, confirma que a redução dos custos de combustÃvel é essencial para que o programa atinja os objetivos. Ele diz que, independentemente do modal - caminhão, navio ou avião -, o combustÃvel sempre é o insumo mais caro do frete.
A CNT esperava que a medida provisória (agora projeto de lei) do BR do Mar tivesse sido apresentada já no começo deste mês. "Talvez, esse óbice do Estado de São Paulo seja um entrave para a publicação do projeto", argumentou Batista. As demais medidas, segundo ele, também são estÃmulos, mas não tão determinantes. "Na verdade, está se promovendo uma abertura de mercado."
Por meio de sua assessoria de imprensa, o presidente do Comitê Nacional de Secretários da Fazenda (Comsefaz) e secretário estadual da Fazenda do PiauÃ, Rafael Fontenele, disse que o tema ainda não foi discutido no órgão.
Formal
O governo Doria nega que haja relutância em atender ao pedido do governo Bolsonaro. Por nota, a Secretaria Estadual da Fazenda disse que "o governo do Estado e o governo federal concordam em incentivar o setor", mas que "é preciso que o setor (de Transportes) protocole um pedido formal na Secretaria da Fazenda, o que ainda não foi feito". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo