15/02/2021 18h11
Serra diz que denúncia de caixa 2 é 'investigação vazia, narrativa fantasiosa'
O senador José Serra (PSDB-SP) afirmou nesta quinta, 5, que a denúncia de suposto caixa dois de R$ 5 milhões apresentada e aceita nesta quarta, 4, pela Justiça Eleitoral é fruto de uma 'investigação vazia' sobre a qual 'ele nunca teve nem mesmo a oportunidade de ser ouvido'. A peça foi enviada pelo Ministério Público Eleitoral após o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, liberar o inquérito na véspera da prescrição do crime, que ocorreria no final da noite dessa quarta.
"A acusação, oferecida à s pressas e sem fundamento, constrói uma narrativa fantasiosa, que será devidamente desmentida pelos fatos. O episódio reforça o caráter espetaculoso de mais esta ação contra o senador, cuja reputação e carreira são destacadamente incompatÃveis com as práticas que lhe foram atribuÃdas. José Serra reitera sua confiança na Justiça", afirmam os criminalistas Flávia Rahal e Sepúlveda Pertence, que defendem Serra.
O tucano é acusado de receber doações não declaradas à Justiça durante a campanha eleitoral ao Senado em 2014 por meio de uma 'estrutura financeira e societária' montada pelo fundador da Qualicorp, José Seripieri Filho, que também foi denunciado e se tornou réu. Ambos foram alvos da Operação Paralelo 23, deflagrada pela PolÃcia Federal no final de julho. Segundo a PF, Serra teria recebido R$ 5 milhões em três parcelas - duas de R$ 1 milhão e outra de R$ 3 milhões.
O inquérito sofreu entraves. Após a Paralelo 23, o presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, paralisou as investigações e o ministro Gilmar Mendes tirou o caso da Justiça Eleitoral por vislumbrar que a apuração atingiria o foro privilegiado de Serra. Na terça, 3, Mendes decidiu por devolver os autos à primeira instância, na véspera da prescrição.
Horas após a intimação da decisão do ministro, o Ministério Público Eleitoral enviou a denúncia ao juiz eleitoral Marco Antonio Martin Vargas, da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, que colocou Serra no banco dos réus horas antes do prazo prescricional terminar.
Na decisão, o juiz Martin Vargas afirma que os indÃcios trazidos pela Promotoria Eleitoral são suficientes para o recebimento da denúncia pelos crimes de falsidade ideológica eleitoral, corrupção e lavagem de dinheiro. As acusações se baseiam na delação do empresário Elon Gomes de Almeida, que relatou que os repasses foram ocultados por meio de notas fiscais de serviços que não foram realizados. Os documentos foram entregues à Promotoria Eleitoral.
"O conjunto indiciário amealhado aos autos reúne declarações e documentos de corroboração indicativos do recebimento de doações não declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral, em favor da campanha eleitoral do acusado José Chirico Serra, ao cargo de Senador da República, em 2014, as quais teriam sido operacionalizadas pela adoção de manobras e estratagemas próprios ao delito de lavagem de dinheiro, atinentes a simulação de diversos negócios jurÃdicos supostamente entabulados para ocultar e dissimular a origem ilÃcita dos valores envolvidos", anotou o juiz Martin Vargas.
"A aparente convergência de elementos fáticos reforça a convicção em torno da existência de indÃcios mÃnimos de viabilidade da acusação, no que concerne a criação, em tese, de uma complexa dinâmica societária de omissão de dados à Justiça Eleitoral e de lavagem de capitais, visando a obtenção de vantagem ilÃcita futura, supostamente erigida para dissimular fins ilÃcitos de grupos polÃticos e empresariais, condutas que perfazem as coordenadas tÃpicas dos delitos de falsidade ideológica eleitoral, corrupção passiva e lavagem de dinheiro", continuou o magistrado.
Os autos do processo foram postos sob sigilo para 'evitar interferências indevidas no processo eleitoral municipal de 2020'. O sigilo deverá ser levantado a partir do dia 28 de novembro, data do segundo turno das eleições. Outros dois empresários, Arthur Azevedo Filho e Mino Mattos Mazzamati, também se tornaram réus no processo.
LEIA A ÃNTEGRA DA MANIFESTAÇÃO DA DEFESA DO SENADOR JOSÉ SERRA
A Defesa de José Serra repudia com veemência a denúncia oferecida contra ele pelo Ministério Público Eleitoral na noite desta quarta-feira (4), formulada com base em uma investigação vazia, sobre a qual ele nunca teve nem mesmo a oportunidade de ser ouvido.
A acusação, oferecida à s pressas e sem fundamento, constrói uma narrativa fantasiosa, que será devidamente desmentida pelos fatos. O episódio reforça o caráter espetaculoso de mais esta ação contra o senador, cuja reputação e carreira são destacadamente incompatÃveis com as práticas que lhe foram atribuÃdas. José Serra reitera sua confiança na Justiça.
Flávia Rahal e Sepúlveda Pertence
Advogados de defesa de José Serra
COM A PALAVRA O CRIMINALISTA CELSO VILARDI, DEFENSOR DE JOSÉ SERIPIERI JÚNIOR
O Ministério Público Eleitoral apresentou uma denúncia repleta de ilegalidades. Permanece ainda o ambiente de excessos, apesar das correções já feitas pelo Supremo Tribunal Federal. Ao apurarem uma doação eleitoral, os denunciantes conseguiram transmutar essa ação em crime tÃpico de funcionário público, mas atribuÃdo a uma pessoa de atividade privada, o que é vedado pela lei. E, ao que parece, levou a contradições inerentes à própria delação colhida anteriormente, que pode ter sido ou esquecida ou confundida. DifÃcil saber pela peça do MPE.
Diante de tão frágil alegação e do pouco nexo probatório, a denúncia deve ter vida breve nos tribunais.
Fonte: Estadão Conteúdo