06/02/2019 17h30
Sítio foi mais usado por Lula do que por proprietário, diz Gabriela Hardt
Ao condenar o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva a 12 anos e 11 meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, a juÃza federal Gabriela Hardt afirmou que a famÃlia do petista "usufruiu do imóvel como se dona fosse". "Inclusive, em 2014, Fernando Bittar alegou que sua famÃlia já não o frequentava com assiduidade, sendo este usado mais pela famÃlia de Lula", anotou a juÃza. A magistrada afirmou, no entanto, que a ação penal não "passa pela propriedade formal do sÃtio".
Em sentença, Hardt considerou que o valor de R$ 1 milhão empregado por OAS, Schahin e Odebrecht no SÃtio Santa Bárbara foram propinas em benefÃcio do ex-presidente. Ela ressalta que a denúncia oferecida pela Operação Lava Jato narra "reforma e decoração de instalações e benfeitorias" que teriam sido realizadas em benefÃcio de Luiz Inácio Lula da Silva e famÃlia. "O registro da propriedade do imóvel em que realizadas tais reformas está em nome de Fernado Bittar, também réu nos presentes autos, pois a ele imputado auxÃlio na ocultação e dissimulação do verdadeiro beneficiário", anotou.
De acordo com a magistrada. "os proprietários dos dois imóveis são pessoas que possuem vÃnculo com a famÃlia do ex-presidente, vÃnculo esse afirmado por todos os envolvidos". "Ainda, as operações contaram com a participação do advogado Roberto Teixeira, pessoa também vinculada de forma próxima a Luiz Inácio Lula da Silva, sendo lavradas as duas escrituras pelo mesmo escrevente, em seu escritório."
E escreveu: "Fato também incontroverso é o uso frequente do sÃtio pela famÃlia de Luiz Inácio Lula da Silva, sendo que, ao menos em alguns perÃodos, também resta incontroverso que a famÃlia do ex-presidente chegou a usá-lo até mais do que a famÃlia Bittar."
A juÃza afirma que, "sendo proprietário ou não do imóvel, é fato incontroverso que foram efetuadas reformas e comprados objetos para atender interesses de Luiz Inácio Lula da Silva e de sua famÃlia".
A magistrada ainda levou em consideração a quebra de sigilo telefônico da OAS, que apontam para obras em suposto benefÃcio do petista. "Da quebra de sigilo telemático constam ainda diversos emails trocados entre eles, claramente com o objetivo de intermediar as negociações feita pela OAS e o ex-presidente, até porque este último afirmou não usar email. Note-se que há inclusive emails que Fernando recebeu que tratam das reformas do apartamento triplex do Guarujá, com o qual ele não tinha nenhuma vinculação, em época concomitante à s reformas feitas no sÃtio", anotou.
Condenações
A sentença de Gabriela Hardt tem 360 páginas. Também foram condenados os empresários José Adelmário Pinheiro Neto, o Léo Pinheiro, ligado a OAS, a 1 ano, 7 meses e 15 dias; o pecuarista José Carlos Bumlai, a 3 anos e 9 meses; o advogado Roberto Teixeira, a 2 anos de reclusão, o empresário Fernando Bittar (proprietário formal do sÃtio), a 3 anos de reclusão; e o empresário ligado à OAS Paulo Gordilho, a 3 anos de reclusão.
A juÃza condenou os empresários Marcelo Odebrecht, a 5 anos e 4 meses; Emilio Odebrecht, a 3 anos e 3 meses; Alexandrino Alencar, a 4 anos; e Carlos Armando Guedes Paschoal, a 2 anos. O engenheiro Emyr Diniz Costa Junior recebeu 3 anos de prisão. Todos são delatores e, por isso, vão cumprir as penas acertadas em seus acordos.
Rogério Aurélio Pimenrel, ex-segurança do presidente, foi absolvido da acusação de lavagem de dinheiro.
A Lava Jato afirma que o sÃtio passou por três reformas: uma sob comando do pecuarista José Carlos Bumlai, no valor de R$ 150 mil; outra da Odebrecht, de R$ 700 mil; e uma terceira reforma na cozinha, pela OAS, de R$ 170 mil, em um total de R$ 1,02 milhão.
Em interrogatório, Bumlai declarou não ter pago "nem um real" nas obras. O sÃtio de Atibaia está em nome do empresário Fernando Bittar, filho de Jacó Bittar, amigo de longa data do ex-presidente da República.
Em depoimento, Fernando Bittar negou que tenha pago a obra. "Eu não sei dizer se eles (Lula e Marisa) pagaram. Mas na minha cabeça…"
Apontado por delatores como o homem de confiança do ex-presidente que tocou a obra do sÃtio, o ex-segurança de Lula Rogério Aurélio Pimentel afirmou ter sido o "capataz" das reformas no imóvel e confirmou os pagamentos da Odebrecht.
Em alegações finais, a defesa do ex-assessor da Presidência da República afirmou que se ele "não sabia sequer as quantias que continham nos envelopes, tampouco possa se esperar que soubesse de eventual origem ilÃcita dos valores".
Ação
O sÃtio Santa Bárbara é pivô da terceira ação penal da Lava Jato, no Paraná, contra o ex-presidente - além de sua segunda condenação. O petista ainda é acusado por corrupção e lavagem de dinheiro por supostas propinas da Odebrecht - um terreno que abrigaria o Instituto Lula e um apartamento vizinho ao que morava o ex-presidente em São Bernardo do Campo. O processo também já teve a entrega de alegações finais e aguarda sentença.
Prisão
O ex-presidente já cumpre pena de 12 anos e um mês de prisão no caso triplex, em "sala especial", na sede da PolÃcia Federal do Paraná, em Curitiba, desde 7 abril de 2018, por ordem do então juiz federal Sérgio Moro.
Lula foi sentenciado pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro envolvendo suposta propina de R$ 2,2 milhões da OAS referente às reformas do imóvel.
Fonte: Estadão Conteúdo