09/06/2019 13h10
Tradição e monarquia no apoio a Bolsonaro
O uniforme, as bandeiras e os sÃmbolos são os da antiga Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, FamÃlia e Propriedade (TFP). Os homens de cabelos grisalhos e roupas marrom e cinza carregam estandartes e distribuem panfletos no inÃcio da Avenida Paulista, longe dos carros de som. Era dia de manifestar apoio à pauta conservadora do governo de Jair Bolsonaro. Entre eles estava um senhor de 78 anos, a grande referência do grupo. Trata-se de Dom Bertrand Maria José Pio Januário Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança, segundo na linha sucessória real e um dos lÃderes do movimento de restauração da monarquia.
Os militantes que o cercavam eram todos sócios ou diretores do Instituto PlÃnio Corrêa de Oliveira. Eles são continuadores da obra da TFP, a sociedade que desde 1960 combatia o socialismo e a ameaça do comunismo no Brasil até a sua divisão, após a morte de seu fundador, PlÃnio Corrêa de Oliveira, o Doutor PlÃnio, em 1995. Centro difusor do pensamento conservador, o instituto é um dos suportes do atual governo. "Tomamos muito cuidado no sentido de não ser polÃtico, somos independentes da Igreja e do governo. O governo tem uma caracterÃstica conservadora, mas há pontos que precisam ser reparados", disse o empresário Adolpho Lindenberg, presidente do Instituto e herdeiro do legado tradicionalista de origem católica.
Depois de apoiar o impeachment de Dilma Rousseff, os integrantes do Instituto estão voltando à s ruas em defesa da união das forças conservadoras. "Temos de tomar cuidado, pois estão querendo lançar uma discórdia entre os conservadores e nós devemos evitar isso. O momento é de reconstrução nacional, pois o PaÃs foi saqueado", afirmou d. Bertrand. O prÃncipe se encontrou com Lindenberg na quarta-feira, 5, no casarão que abriga a sede do instituto em Higienópolis, no centro.
A pauta conservadora do governo agrada aos dois. Eles aplaudem os compromissos da ministra da Mulher, da FamÃlia e dos Direitos Humanos, Damares Alves, com a vida "desde sua concepção até a morte", com a famÃlia tradicional formada por homem e mulher e com o direito sagrado de os pais educarem seus filhos. Também apoiam a luta travada pelo governo contra o que chamam de ecoterrorismo, o ambientalismo no qual enxergam a "insidiosa transformação de vermelhos em verdes". Para o prÃncipe, "Deus criou a natureza para nós, homens". "O homem é o jardineiro de Deus. E eles (ambientalistas) acham que o homem é o grande predador." Ao seu lado, Lindenberg completou: "Esse movimento ecológico é infiltrado por ideias panteÃstas".
Como Bolsonaro, os dois criticam a polÃtica indigenista dos governos anteriores. Defendem que a fé cristã seja ensinada à s tribos como forma de levar a civilização a esses povos. Tanto um quanto outro também compartilham das ressalvas do presidente ao "movimento negro", a quem acusam de fomentar o racismo. "Todos temos sangue negro em nossas famÃlias. Até na minha. Uma pesquisa encontrou um negro chamado Ludovico Moro", revelou o prÃncipe. Seu colega concordou. "Essa insistência do movimento negro cria o problema racial no Brasil, problema que nunca houve."
Bertrand e Lindenberg evitaram citar quais são as restrições que fazem ao governo. Mas a declaração do presidente sobre a nomeação de um ministro evangélico para o Supremo Tribunal Federal (STF) não agradou aos católicos tradicionalistas. Também lhes incomodam os modos e as palavras usadas por Olavo de Carvalho, o guru dos Bolsonaro, em suas disputas com os ministros da ala militar do governo.
Monarquistas
D. Bertrand mantém excelentes relações com oficiais generais das três Forças, muitos dos quais monarquistas. "Há muitos monarquistas na Marinha. Eu não sou militante ativo da causa monárquica porque me dediquei só ao Instituto, mas ela tem toda a minha simpatia e apoio", contou Lindenberg. O prÃncipe afirmou, porém, em seguida, que este não é o momento de se defender a restauração monárquica, pois a causa ameaçaria dividir o campo conservador. Para ele, no entanto, a força de seu movimento está crescendo. "Depois da reconstrução nacional, haverá uma restauração da monarquia."
Na mais recente manifestação em defesa do governo, d. Bertrand subiu no carro de som do grupo Nas Ruas e fez um duro discurso contra os "vermelhos". A exemplo dos militantes do Instituto que foram à Avenida Paulista, ele rejeita a intervenção militar, mas é crÃtico ao Supremo Tribunal Federal. "É preciso haver um mecanismo que garanta a imparcialidade dos juÃzes."
Na manifestação, ativistas do Instituto seguiram a cartilha de defesa do presidente Bolsonaro e crÃticas ao Centrão e à imprensa. "Movimentos internos querem dividir e desestabilizar a base do governo. A imprensa explora essa divisão interna", disse o advogado Frederico Vioti, 48 anos, enquanto distribuÃa panfletos.
Além de d. Bertrand, o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP), seu sobrinho, também discursou no carro de som do Nas Ruas. Ao Estado, o deputado eleito com 118 mil votos disse defender o parlamentarismo como primeira etapa para a restauração da monarquia. "Está se construindo um clima polÃtico para isso."
Luiz Phillippe não encontrou resistência para entrar na polÃtica porque seu pai deixou a linha sucessória da famÃlia real. Antes de se candidatar, conversou com o tio, que apoiou sua decisão de buscar uma vaga no Parlamento pelo PSL. "Um verdadeiro patriota deve apoiar tudo o que Bolsonaro estiver fazendo de bom no sentido da restauração de nossos valores", afirmou Bertrand.
Imagens
O prÃncipe estava à vontade no prédio em Higienópolis que preserva os quadros e a mobÃlia do tempo em que o doutor PlÃnio atendia os visitantes na sala com a imagem de São Pio X. "Aqui não há nada a esconder", disse o prÃncipe enquanto abria as portas de diversos cômodos e os exibia para a reportagem do Estado.
O leão - velho sÃmbolo da TFP - continua lá, assim como as imagens marianas e os crucifixos. A sala de reunião do conselho da entidade mantém no centro uma coroa e na parede a efÃgie de seu fundador. A ala antiga do movimento não pode usar o nome tradicional da entidade no Brasil porque perdeu na Justiça a disputa por esse direito para o grupo dissidente, cujo chefe, João Scognamiglio Clá Dias, fundou a associação Arautos do Evangelho.
D. Bertrand estima em centenas o número de sócios do Instituto, todos atuantes na "ordem temporal", inclusive nas eleições. "Muito mais do que uma eleição entre pessoas, a última campanha foi uma eleição entre dois modelos de Brasil. Um continuava a agenda do PT - e, a nosso ver, o PT é uma seita, pois o comunismo foi definido pelo papa Pio XI como uma seita e de fato é", disse.
A outra agenda era a da "reconstrução do Brasil". "A obra do PT nesses anos todos tinha um denominador comum: a destruição do que restava de cristandade no PaÃs", concluiu a frase com os "erres" sibilantes, de consoante fricativa, soando levemente como francês.
O ataque ao Partido dos Trabalhadores se mistura à s crÃticas a outro grupo de desafetos dos dois: o clero progressista, responsável pelas transformações pelas quais passou a Igreja desde o ConcÃlio Vaticano II, nos anos 1960. Adeptos da missa tridentina, cuja liturgia em latim caracterizava o rito católico até sua modificação no papado de Paulo VI, os integrantes do Instituto não simpatizam com o papa Francisco, a quem acusam de ser próximo dos adeptos da Teologia da Libertação.
"A solução dos problemas atuais é o que está no lema do papa São Pio X: restaurar o homem em Cristo, pois a crise atual não é apenas uma crise econômica e polÃtica, ela é, fundamentalmente, uma crise moral e religiosa", disse o prÃncipe. Lindenberg completou: "Queremos a restauração da civilização cristã, em clima de liberdade que nos permita lutar pela liberdade, ao contrário do que ocorria no lulismo. Queremos o nosso PaÃs de volta". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo