07/09/2020 12h40
Violência política mobiliza polícia, MP e TRE no Rio
Encontrada morta nas águas do Rio Roncador, na Baixada Fluminense, Sandra Silva foi a última vÃtima dos crescentes casos de violência polÃtica no Rio. O episódio aconteceu na última terça-feira, 1.º, no municÃpio de Magé. A suspeita preliminar da polÃcia é de que o assassinato da pré-candidata a vereadora pelo PSB, conhecida como Tia Sandra, tenha motivação eleitoral. Só neste ano de eleições, três polÃticos já foram alvejados até a morte na Baixada.
A execução da vereadora carioca Marielle Franco, em março de 2018, jogou luz, com proporções inéditas, sobre os crescentes casos de mortes com fins polÃticos em terras fluminenses. Foram 26 polÃticos ou assessores mortos somente na região metropolitana nos últimos quatro anos. A populosa Baixada, com 19 registros, é a área com maior incidência e, portanto, a que mais preocupa para a eleição deste ano.
A preocupação com violência polÃtica no Rio mobiliza forças que não se limitam à apuração de assassinatos. Para a eleição deste ano, o Tribunal Regional Eleitoral coordena um grupo que conta com a participação de diferentes núcleos da PolÃcia Civil, do Ministério Público, da Procuradoria Eleitoral e da PolÃcia Federal.
Os dados de mortes foram levantados pela plataforma Fogo Cruzado, que monitora tiroteios na Grande Rio, a pedido do jornal O Estado de S. Paulo. Vinte delas foram classificadas como execuções, o que deixa evidente sua motivação polÃtica: são encomendadas como instrumento de disputa por poder em regiões com forte atuação do crime. Essas vÃtimas eram, na maior parte, pessoas ligadas ao cargo de vereador - entre empossados, candidatos e assessores, por exemplo.
Além de Tia Sandra, os outros dois mortos neste ano foram alvejados em São João de Meriti, que faz divisa com bairros da zona norte da capital. Encontrado sem vida dentro do próprio carro, o empresário Aerton Santos de Araújo era pré-candidato a vereador em Duque de Caxias, municÃpio vizinho.
Já Ubirajara Moraes Pereira, o Bira da Saúde, concorreria ao cargo na própria São João. Em março, ele foi atingido com dez tiros na cabeça. Estava com o filho, que foi poupado pelos assassinos. Além disso, nenhum objeto foi roubado, o que reforça as caracterÃsticas de execução.
"Isso chama muita atenção para uma violência polÃtica que claramente está com sobrerrepresentação na Baixada e para a necessidade de que delegacias de homicÃdio atentem para essa lógica violenta da polÃtica na região", aponta Maria Isabel MacDowell Couto, socióloga e pesquisadora do Fogo Cruzado, ao lembrar que não há esse domÃnio da região nos dados de tiroteios que não envolvem polÃticos.
Influência
Para além das mortes, as autoridades monitoram a recorrente influência de grupos criminosos, principalmente as milÃcias, sobre os eleitores. Segundo dados do Ministério Público e do TRE, 672 locais de votação do Estado estão inseridos em áreas controladas pelo crime. Isso equivale a 14% do total.
MunicÃpios da região metropolitana como ItaboraÃ, Maricá e São Gonçalo também têm presença massiva do crime organizado e registram casos de polÃticos mortos nos últimos anos.
Pelos registros do Disque-Denúncia, houve 438 reclamações, na eleição de 2018, de que milicianos exerciam pressão num raio de 200 metros dos locais de votação no Estado. O Comando Vermelho, maior facção do tráfico no Rio, gerou 423 denúncias.
Nos trabalhos coordenados pelo TRE, cada órgão ajuda com suas respectivas competências. O MP Eleitoral se concentra em dois pontos: garantir que nenhum candidato seja impedido de fazer campanha em áreas que precisariam do aval do crime e evitar que eleitores sejam coagidos a votar em determinada pessoa. Para isso, depende também das forças de Segurança.
Outra frente, tocada pela PolÃcia Civil, investiga a possÃvel participação de criminosos no apoio polÃtico e financeiro a candidatos. "A principal preocupação da Draco (Delegacia de Repressão à s Ações Criminosas Organizadas) é identificar, corretamente, possÃveis candidatos bancados, cooptados, escolhidos por organizações criminosas para participação do pleito eleitoral", aponta o delegado titular William Pena.
O termo "corretamente" foi usado pelo delegado porque é comum, em ano eleitoral, a apresentação de falsas denúncias para chamar a atenção da Draco e prejudicar adversários.
"A partir da identificação, podemos angariar elementos a fim de concluir a investigação e subsidiar o Ministério Público com provas que possibilitem o oferecimento de denúncia criminal, ação civil pública, cassação de mandato, entre outras medidas que o órgão ministerial entender pertinente", explica Pena. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo