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Regional
25/02/2026 06h04

Andrelândia, Açores e a vocação leiteira que atravessou o Atlântico

A história de Minas Gerais é feita de encontros. Encontros de povos, de culturas, de vocações produtivas e de espíritos empreendedores. Em muitos casos, essas origens permanecem discretas, quase silenciosas. Em outros, revelam-se como verdadeiros alicerces da identidade regional.

É o que ocorre com o município de Andrelândia.
A cidade tem suas raízes diretamente ligadas à Ilha do Faial, no Arquipélago dos Açores. Foi de lá que partiu André da Silveira, personagem central na formação do núcleo que daria origem ao município. Sua trajetória insere Andrelândia no amplo movimento migratório açoriano do século XVIII, responsável por contribuir decisivamente para o povoamento e a organização econômica de diversas regiões mineiras.

Os açorianos que chegaram ao Brasil não trouxeram apenas seus nomes ou sua fé. Trouxeram um modelo de vida. Acostumados às condições desafiadoras das ilhas atlânticas, desenvolveram forte tradição agropecuária, especialmente na criação de gado e na produção de leite e derivados. O leite, nos Açores, sempre representou mais do que alimento: representou estabilidade, organização familiar e estrutura comunitária.

Não por acaso, Andrelândia consolidou ao longo do tempo uma vocação ligada à produção leiteira. Essa convergência entre origem histórica e atividade econômica contemporânea não é mera coincidência — é continuidade civilizatória.

Outras famílias açorianas, como as conhecidas “Três Ilhoas”, também oriundas do Faial, estabeleceram-se na região de São João del-Rei e contribuíram significativamente para a formação social e econômica do Sul de Minas. Essa presença atlântica deixou marcas profundas na organização produtiva, no espírito cooperativo e na disciplina do trabalho rural.

Hoje, em um cenário global cada vez mais atento à origem dos produtos e à valorização territorial, essa herança histórica transforma-se em ativo estratégico. O consumidor contemporâneo não busca apenas qualidade; busca identidade, procedência, narrativa. Territórios que conhecem e assumem suas raízes possuem diferencial competitivo.

Os Açores, atualmente, figuram entre as regiões europeias de destaque na produção de leite e derivados, combinando tradição, cooperativismo e tecnologia. Essa experiência abre oportunidades concretas de intercâmbio técnico e institucional com Minas Gerais, especialmente com regiões que compartilham matriz histórica semelhante.

Reconhecer a origem açoriana de Andrelândia não é um exercício meramente memorialístico.
É compreender que passado e futuro podem dialogar de forma produtiva. É transformar história em estratégia.
Minas Gerais construiu sua identidade a partir da integração entre tradição e inovação.

Andrelândia, com sua raiz atlântica e sua vocação leiteira, simboliza essa síntese.
Ao valorizar essa trajetória, reafirmamos não apenas um vínculo com o passado, mas uma oportunidade para o desenvolvimento sustentável, cooperativo e internacionalmente conectado.
A história que atravessou o Atlântico continua a produzir frutos.


Claudio Motta
Presidente da Casa dos Açores de Minas Gerais

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