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09/07/2026 17h07

O Guardião Incansável do Rio Verde, o Velho do Rio da Vida Real

Roni Peterson

*Por Isa Crabi

Tem gente que mora à beira do rio. O Roni Peterson vive dentro dele, entre Varginha e Elói Mendes, no lugar conhecido como Ponte dos Buenos.

Eu sou Eucrisia Pereira, a Isa Crabi, e durante muito tempo eu ouvia falar de um “doido que morava no rio”. Quando fui entrevistá-lo, descobri o ser humano maravilhoso que ele é. Um homem com uma missão sublime, que muitas vezes coloca em risco a própria vida para proteger o Rio Verde. Ele já foi ameaçado por conta de garimpos clandestinos, mas não recua.

O Velho do Rio de São Lourenço

Quem assistiu à novela Pantanal conhece o Velho do Rio, vivido por Paulo Gorgulho. Um ser mítico, protetor das águas, que surge quando o rio precisa ser defendido. O que pouca gente sabe é que Paulo Gorgulho nasceu em São Lourenço, cidade também cortada pelo Rio Verde.

A vida imita a arte, e às vezes a supera.

O Velho do Rio da ficção virou carne e osso na Ponte dos Buenos. Ele tem nome, história e cicatriz: Roni Peterson. Assim como o personagem, Roni é guardião, é voz do rio, é quem aparece quando ninguém mais aparece. A diferença é que não é encantamento. É realidade, suor, ameaça e coragem todos os dias, entre Varginha e Elói Mendes.


A rotina de quem vive pelo rio

Todo santo dia, ao amanhecer, Roni grava um vídeo. É o jeito dele de agradecer a Deus pelo novo dia. Na câmera, ele mostra os patos selvagens que chegaram um dia e decidiram ficar. Pra ele, já viraram domésticos. Mostra também o café fumegante na serração, aquele vapor subindo na neblina da manhã que dá vontade na gente de parar tudo e tomar um café junto com ele.

É simples, é real, e é nessa rotina que a gente entende: Roni não só defende o rio. Vive em comunhão com ele.


A missão dele

Numa época em que a dor apertava demais, o próprio Roni pensou em dar cabo da vida ali, nas águas do Rio Verde. Mas foi em meio ao lixo que ele encontrou um motivo pra ficar. Foram sacos de lixo boiando, a sujeira, o abandono do rio, que o fizeram mudar de ideia. Naquele dia ele decidiu: ao invés de tirar a própria vida, ia passar a cuidar da vida do rio.


E cuidou. E salvou.

Roni já tirou da água 3 pessoas que queriam se despedir nas águas do Rio Verde. Hoje essas pessoas são amigas dele. Duas famílias inteiras passaram a conhecê-lo, a respeitá-lo, a chamá-lo de irmão. O rio que quase levou a vida dele, virou o lugar onde ele salvou outras vidas.

Mas cuidar do rio também é lidar com visitantes indesejáveis. Uma vez, cortaram um pé de goiabeira que ele mesmo tinha plantado às margens. A indignação veio na hora. Dava vontade de reagir, de revidar. Mas Roni se conteve. Aprendeu ali, na prática, que pra ser guardião não basta ter força no braço. Precisa ter paciência no coração. Ele entendeu que a violência afasta as pessoas do rio, e o que ele quer é justamente o contrário: trazer gente pra cuidar junto.

Ser guardião não é fácil. É acordar cedo na Ponte dos Buenos pra recolher o que a pressa dos outros jogou na água. É enfrentar indiferença, poluição, ameaça de garimpos clandestinos, e até a ignorância de quem corta uma árvore sem pensar. E mesmo assim não abandonar o rio.


A luta de Roni não passou despercebida. A EPTV resolveu dar visibilidade a ele e, durante um tempo, documentou diariamente a luta de Roni Peterson. O Brasil viu o homem que vive pelo rio, que chora pelo rio, que não desiste do rio.

O Rio Verde corre mais forte porque tem o seu Velho do Rio vigiando suas margens entre Varginha e Elói Mendes. E eu, que um dia ouvi falar do “doido do rio”, hoje tenho a honra de contar a história do homem que escolheu a vida, aprendeu a ter paciência, e nos convida a fazer o mesmo.

Obrigado, Roni. Por transformar dor em cuidado, por nos lembrar de agradecer ao amanhecer, e por provar que os guardiões de verdade não vivem na TV. Vivem aqui, na Ponte dos Buenos !

*Isa Crabi da cidade de Eloi Mendes. Pós graduada em língua portuguesa. Escritora e entrevistadora independente.

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