26/03/2018 18h50
'Imagens do Estado Novo': quando o passado se projeta para o presente
Como fazer falar a História? Historiadores o fazem por meio de documentos, ou depoimentos, no caso da História Oral. Cineastas recorrem a imagens. Mesmo que sejam imagens "oficiais", elas podem dizer a "verdade" de um perÃodo.
Nessa aposta arriscada se envolve Eduardo Escorel com "Imagens do Estado Novo 1930-1945", continuidade de seu projeto de prospecção histórica já desenvolvido em três filmes anteriores "1930 - Tempo de Revolução" (1990), "32 - a Guerra Civil" (1993) e "35 - Assalto ao Poder" (2002).
De certa forma, "Imagens do Estado Novo" abarca os anteriores, avança em sua linha de análise e coloca a reflexão em outro patamar. Trata-se agora de abordar o longo perÃodo da ditadura de Getúlio Vargas que, como suas ambivalências e alcance, molda, para o bem e para o mal, o Brasil contemporâneo que conhecemos, com seus impasses, limites e contradições.
"Imagens", no entanto, não é um filme de tese. Alinha-se mais à vertente ensaÃstica, como as de Chris Marker e Harun Farocki. Induz mais ao pensamento que à certeza. Trata de usar as imagens disponÃveis e fazê-las falar, à maneira de "sintomas". Seja através do comentário em off (do próprio diretor), seja pela forma como essas imagens são montadas e justapostas, seja por este outro tipo de comentário incidental, a trilha sonora escolhida.
O resultado é uma enorme e deslumbrante massa de informações, que se apresenta ao espectador ao longo de três horas e quarenta e sete minutos de projeção, com um pequeno intervalo no meio. O volume de imagens (coletadas pelo pesquisador Antônio Venâncio) impressiona. São filmes oficiais, em sua maioria. Mas também imagens domésticas e fotogramas que registram a participação de cidadãos anônimos e comuns perdidos no turbilhão da História.
Justapostas as imagens, comentadas pelo tom neutro do narrador, e avivadas pelo calor da música (em especial, o recorrente samba-exaltação "Brasil", de Benedito Lacerda e Aldo Cabral), a impressão que deixam é de profunda melancolia. O perÃodo, batizado de Estado Novo, como o estado fascista português, começa por um golpe militar e termina por outro. A habilidade estrategista de Getúlio, entre o populismo e técnicas de manipulação importadas, é insuficiente para mantê-lo no poder quando o regime se torna historicamente obsoleto no fim da 2ª Guerra Mundial. É deposto pelos mesmos militares que o apoiavam na véspera.
Embora "termine" em 1945, o filme ajunta uma coda sombria - imagens de João Goulart, Ministro do Trabalho, ao lado de Getúlio. Jango que, anos depois, assumiria a Presidência com a renúncia de Jânio Quadros e seria derrubado por outro golpe civil militar em 1964.
Talvez não fosse intenção de Escorel, mas quem adota o ensaÃsmo tem de estar aberto a conclusões tão provisórias como inesperadas. Essas imagens falam de um paÃs de sociedade civil muito fraca, baixa convicção democrática, tutelado por militares em vários perÃodos, com um povo à s vezes apático, outras cheio de energia, mas no geral infantilizado no trato com governantes de viés autoritário e manipulado pelas classes dominantes. Retrato do passado, projetado para o presente.
O filme é desolador. E imprescindÃvel.
Fonte: Estadão Conteúdo