23/10/2018 09h10
Mexicano Carlos Reygadas destaca-se com o poderoso longa 'Nuestro Tiempo'
Exibido no último dia da competição do Festival de Cannes, em maio, havia a expectativa de que A Ãrvore dos Frutos Selvagens fosse agraciado pelo júri com um prêmio importante (quem sabe a Palma de Ouro?). Seria a segunda do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan - a primeira foi com Winter Sleep, em 2014. Ceylan tem uma assinatura que o cinéfilo identifica logo.
Um olho para a beleza - e para os céus borrascosos -, um gosto acentuado pelo plano-sequência e longos diálogos que são, ao mesmo tempo, discussões humanistas e filosóficas. A literatura com frequência está no centro do seu cinema. O filho pródigo que volta para casa em seu novo filme graduou-se, mas não tem emprego. Não quer prestar concurso para o serviço público. Quer dinheiro para publicar seu primeiro livro, mas a famÃlia está endividada. Reencontra a antiga namorada, o pai - afloram velhos conflitos. Busca reencontrar a fé no Profeta - e dialoga com dois imames para expressar/tirar dúvidas.
Os diálogos intensos sempre dão a impressão de que o cinema de Ceylan está embasado na literatura, e até no teatro. Os planos contÃnuos introduzem a questão do tempo. É outono e, enquanto Sinan fala com a ex, debaixo daquela árvore, caem as folhas douradas. Eles abrem o coração, mas de alguma forma ainda estão secretando suas mais profundas emoções. A Ãrvore dos Frutos Selvagens é da mesma estatura de Leto/Verão, do russo Kirill Serebrennikov.
Se o júri presidido por Cate Blanchett tivesse feito a coisa certa, a Palma de Ouro seria de algum deles. Existem crÃticos que discordam. Gostariam de vê-la atribuÃda a Em Chamas, do sul-coreano Lee Chang-dong, que também tem o pé na literatura. Um aspirante a escritor, a mulher que o seduz e, de repente, o envolver num triângulo. Ela desaparece, o que é realidade, o que é ficção?
Em Chamas terá sua primeira exibição na sexta, 26, no Caixa Belas Artes 1, à s 20h30. A Ãrvore passa nesta terça, à s 19h45, no CineSala. A 42ª Mostra tem um upgrade na sua programação. Entre os grandes filmes, há um Jean-Luc Godard, Imagem e Palavra, também nesta terça, à s 22h10, na Reserva Cultural. Todo mundo fala maravilhas de Roma, do mexicano Alfonso Cuarón, que recebeu o Leão de Ouro em Veneza e será o filme de encerramento. E há o outro mexicano, Carlos Reygadas. Disputa com o Ceylan o tÃtulo de melhor dessa Mostra. Nuestro Tiempo, Nosso Tempo, ainda não tem distribuição assegurada no Brasil. Passa nesta terça, à s 20h30, no Cinearte Petrobrás 1. Reygadas tem sido uma presença frequente na Mostra com seus (grandes) filmes. É ousado, basta lembrar de Japan, Batalha no Céu, Luz Silenciosa, Revolución e Luz Depois das Trevas. Seu cinema não é narrativo, no sentido tradicional. Opera por rupturas.
Nuestro Tiempo começa com uma brincadeira de crianças e adolescentes no barro. Demora um tempo antes que o espectador consiga identificar os protagonistas, e mesmo o tema do filme. É o nosso tempo, certo, mas retratado como? O lugar é uma hacienda, fazenda, de criação de touros. Os animais são selvagens. Um dos touros, ao ser alimentado, ataca seu treinador, mata uma mula que era o xodó do dono. Começa a surgir o casal protagonista.
Os donos da fazenda. O filho mais velho está indo para a América, para jogar numa universidade. O pai é poeta. A mãe é uma destacada patrona das artes. A narrativa ainda avança por rupturas. Há um concerto de cÃmbalos. É um momento mágico. Enquanto a artista toca, a câmera investiga o local da apresentação, ganha o terraço, de onde se descortina a cidade. Bem mais tarde, a câmera voa num avião que sobrevoa a cidade e finalmente aterrissa. O mundo, seja o deserto ou a cidade, está sempre de fundo. A natureza, com o furor das águas - tempestades -, contribui para dar um sentido cósmico ao drama humano.
Justamente o drama humano, o casal. Sinal dos tempos, marido e mulher têm um acordo de sexo livre, que parece funcionar. Parece, porque de repente a mulher atravessa uma crise de identidade que o marido identifica como se ela estivesse apaixonada pelo amante. Ele surta com a traição. O casamento implode. Há um elo, não sexual, entre o marido e o amante que faz com que a mulher se sinta manipulada. À maneira de Stanley Kubrick em 2001, mas sem nada a ver com a epopeia futurista, o mundo macro e o micro se confundem. Como em Terrence Malick, A Ãrvore da Vida, a natureza participa. Os touros voltam a enfrentar-se. Todas essas informações, aparentemente dispersas, precisam ser ordenadas pelo espectador em seu inconsciente. Reygadas conseguiu - outro grande filme, um marco do cinema latino contemporâneo. Do cinema do nosso tempo.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo