02/04/2018 09h00
O Holocausto visto em imagens de extremo rigor
É bastante sensÃvel a abordagem do Holocausto proposta por "Ãrvores Vermelhas", de Marina Willer, em cartaz nos cinemas. Brasileira, radicada em Londres, Marina refaz essa história a partir das memórias do seu pai, Alfred Willer, que para cá emigrou e construiu sólida carreira de arquiteto.
Alfred é originário de Praga. Antes da guerra, lá viviam 300 mil judeus. Após a perseguição nazista, restaram apenas 12 famÃlias, inclusive a de Willer.
Aparentemente, foram em parte poupados graças aos conhecimentos cientÃficos do pai de Alfred, um quÃmico talentoso, responsável pela descoberta da técnica de produção industrial do ácido cÃtrico. Esse produto tem grande importância na conservação dos alimentos.
Essas informações vão sendo destiladas ao longo do relato que, no entanto, obedece a outra lógica, à de um ensaio poético. Trata-se menos de fazer um inventário linear dos horrores nazistas que produzir uma peça ensaÃstica, na qual prevalecem a memória, cadernos de anotações, falas, impressões. E, por fim, uma viagem de Alfred ao paÃs natal, aos 75 anos. Em seu passeio por lugares da infância, Alfred completa o mosaico de recordações que tece a história de sua famÃlia e de suas origens.
Os aspectos gráficos e sensoriais determinam a linguagem do filme. A narrativa em off, da própria cineasta, em inglês, desenvolve-se sobre imagens de muito rigor, como saÃdas da prancheta de um arquiteto visual. O trabalho de cores e nuances é estupendo. O fotógrafo é o grande César Charlone que, entre outras obras, assina o antológico Cidade de Deus, de Fernando Meirelles.
Essa exatidão das imagens não implica frieza. Pelo contrário, Ãrvores Vermelhas é todo banhado numa emoção doce, que não se cede nem mesmo quando a memória alcança o horror dos fatos vividos ao longo da 2.ª Guerra. É como se um distanciamento sereno o prevenisse de excessos ou recaÃdas melodramáticas. De resto inúteis - a tragédia humana está toda lá e não é preciso reforçá-la para que ganhe efeito maior.
A Shoah é tratada com pudor, digamos assim. E, por isso mesmo, sentimos essa dor compartilhada com maior intensidade. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Estadão Conteúdo